quinta-feira, 7 de maio de 2015

Fatos, farsas e histórias envolvendo a mediunidade...

Hoje o nosso blog vai trabalhar a questão relativa a um tema muito comum no espiritismo e na parapsicologia, que fascina e ao mesmo tempo assusta várias pessoas: a mediunidade, ou conhecida, ainda, como canalização. Será que este fenômeno psíquico é autêntico? Será que se trata muito apenas a uma sugestão do corpo humano? Qual é a história por trás desse fenômeno espiritual? Envolve somente a religião e os dons do corpo e do espírito? Vamos tentar responder a estas perguntas hoje.


1. Mediunidade, ou canalização, designa a alegada comunicação entre humanos (encarnados) e espíritos (desencarnados); ou a manifestação espiritual via corpo físico que não lhe pertence. Apesar de disseminada pela maioria das sociedades ao longo da história humana, foi a partir do século 19 que a mediunidade começou a ser um objeto de intensa investigação científica.

2. Embora não provada através da ciência, a mediunidade é corroborada por diversas doutrinas e correntes espiritualistas, sendo parte das raízes greco-romanas e judaico-cristãs da sociedade ocidental, bem como dos orientais hinduísmo e budismo tibetano. Assim, em perspectiva espiritualista um espírito que deseja comunicar-se entra em contato com a mente do médium ativo, e, por esse meio, pode se comunicar por várias formas, como oralmente (psicofonia), pela escrita (psicografia), ou ainda se fazendo visível ao médium (vidência).

3. Fenômenos de ordem física incluem levitações (poltergeist), batidas (tiptologia), escrita direta (pneumatografia), voz direta (pneumatofonia), voz eletrônica (electronic voice phenomena) etc. Também há a mediunidade de psicometria, que é muito usada como ajuda para a polícia, consiste em um médium ler impressões e recordações pelo contato com objetos comuns; e a mediunidade de cura, como acontece através do médium João de Deus. Outras formas de comunicação com os espíritos podem ser encontradas em “O livro dos médiuns”, de Allan Kardec.

4. Ressalta-se que embora recorrente em vertentes espiritualistas e grupos sociais, e bem evidente na doutrina espírita, a mediunidade não se encontra estabelecida à luz da ciência, visto a própria existência de espíritos não encontrar-se cientificamente estabelecida perante os rigores do contemporâneo método científico.

5. Enquanto no meio espírita utiliza-se a palavra “médium” para designar o indivíduo que serve de instrumento de comunicação entre os espíritos encarnados e espíritos desencarnados, outras doutrinas e correntes filosóficas utilizam termos como “clarividente”, “intuitivo”, “sensitivo”. No entanto, o significado desses termos pode ser considerado por alguns com o mesmo significado, porém cada um pode ser distinguido como uma faculdade mediúnica diferente.

6. Médium é aquele que serve de elo entre o mundo em que vivem os espíritos (plano espiritual, quarta vertical, quarta dimensão, mundo astral) e o mundo terreno, assim este se abre para que o espírito se utilize dele. Clarividente é aquele que tem capacidade de enxergar o plano espiritual através da “terceira visão”. Intuitivo é aquele que tem capacidade de sentir a cadeia dos acontecimentos e assim prevê-los, bem como o sensitivo que também se adequaria a esta faculdade.

7. Kardec definiu as diversas faculdades mediúnicas, de acordo com o que julgou oportuno. Por isso outras designações que nomeiam a faculdade em outras correntes não são interessantes para o espiritismo, a fim de não trazer ambiguidades para os termos.

8. Os parapsicólogos forenses, também conhecidos como investigadores psíquicos, são médiuns que trabalham em conjunto com a polícia na investigação de crimes de difícil solução (tais como: inexistência de testemunhas, escassez de provas, excesso de suspeitos). O papel desses paranormais consiste basicamente em captar sensações sobre o que aconteceu nos locais dos crimes e passar as informações para que os detetives tomem as devidas providências administrativas, incluindo a detenção de suspeitos para interrogatório.

9. Com o sucesso dos seriados em canais pagos que tratam do tema, as polícias de diversos estados americanos passaram a admitir em público o uso de paranormais em investigações onde a tecnologia mostra-se insuficiente. O “Discovery Channel” elaborou um documentário dividido em vários episódios para tratar desse tema, reportando as atividades de quinze investigadores psíquicos no apoio às polícias de diversos estados americanos. Entretanto, o documentário não apresenta casos onde tal ajuda não resultou em sucesso e vale frisar que a lei americana obriga a polícia a ouvir todos os que dizem saber algo sobre a investigação, incluindo aqueles que se intitulam médiuns ou sensitivos, que voluntariamente se apresentam para ajudar, não fazendo parte do procedimento policial a busca de cartomantes, médiuns, etc. para a solução de crimes.

10. Sally Headding, uma respeitada investigadora psíquica americana, formada em psicologia clínica, aponta que atualmente o principal problema da popularidade dos investigadores psíquicos nos Estados Unidos é o surgimento de uma série de falsos paranormais que se apresentam para ajudar a polícia em casos de grande repercussão. No entanto, segundo as palavras de Sally, os verdadeiros paranormais dificilmente procuram a polícia, ao contrário, são convidados por esta para colaborar nas investigações.


11. Curiosamente, no Brasil, o estado de Pernambuco, seguindo determinação da Constituição Estadual, prevê como obrigação daquele estado e dos seus municípios a prestação de “assistência à pessoa dotada dessa faculdade, [desde que] comprovado por profissionais especializados”. Essa comprovação é justamente um mecanismo para que se tenha certeza de não se tratar de um caso de charlatanismo. O processo de definição pelo estado do que é charlatanismo ou não, não está claro.

12. Textos psicografados por médiuns como Chico Xavier e Jorge José Santa Maria (da Sociedade Beneficente Espírita Amor e Luz, no município de Porto Alegre) já foram incorporados a processos criminais na forma de provas documentais.

13. A pesquisa sobre a mediunidade e sua relação mente-cérebro trouxe importantes contribuições científicas, sendo que muitos cientistas e intelectuais renomados empenharam-se em realizar tais estudos, entre eles: Allan Kardec, Alexander Moreira-Almeida, Alfred Russel Wallace, Alexandre Aksakof, Camille Flammarion, Carl Jung, Cesare Lombroso, Charles Richet, Gabriel Delanne, Frederic Myers, Hans Eysenck, Henri Bergson, Ian Stevenson, J. J. Thomson, J. B. Rhine, James H. Hyslop, Johann K. F. Zöllner, Lord Rayleigh, Marie Curie, Oliver Lodge, Pierre Curie, Pierre Janet, Théodore Flournoy, William Crookes, William James e William McDougall.

14. Entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20 diversos médiuns foram levados por cientistas renomados a realizarem testes que tornaram supostamente plausível a existência de espíritos, por exemplo a médium estadunidense Leonora Piper e a médium britânica Gladys Osborne Leonard, que foram testadas por décadas. Os resultados obtidos com cada uma dessas duas médiuns foram bastante impressionantes para os cientistas que as testaram em profundidade, levando-os às considerarem paranormais autênticas.

15. O neurocientista Núbor Orlando Facure diz que a mediunidade é um fenômeno fisiológico, universal comum a todas as pessoas, e que pode se manifestar de diferentes maneiras. Nos estudos que realiza, busca compreender a relação entre os núcleos de base dos automatismos psicomotores e aqueles que geram o fenômeno da mediunidade. Em entrevista dada à revista “Universo Espírita”, Facure aponta que os neurônios em espelho podem ser os responsáveis pela sintonia que permite sentirmos no lugar do outro. No entanto, Facure também diz que isso são apenas conjecturas e que atualmente não existe comprovação científica de que o fenômeno se dê dessa forma.

16. Em pesquisa realizada por Frederico Leão e Francisco Lotufo, médicos psiquiatras da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, constatou-se uma melhora dos aspectos clínicos e comportamentais de 650 pacientes portadores de deficiências mental e múltiplas ao submetê-los a um tratamento espiritual realizado através de reuniões mediúnicas. Como resultado do estudo, os autores sugerem a aplicação do modelo de prática das comunicações mediúnicas como terapias complementares.

17. Outra importante pesquisa foi realizada pelo psiquiatra e parapsicólogo Alexander Moreira-Almeida, que no dia 22 de fevereiro de 2005, defendeu a tese “Fenomenologia das experiências mediúnicas: perfil e psicopatologia de médiuns espíritas”, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, da Faculdade de Medicina da USP. A tese pretendeu traçar um perfil de saúde mental de 115 médiuns espíritas (escolhidos aleatoriamente), na qual foram testados e entrevistados com apurados instrumentos da psiquiatria. Na conclusão do trabalho, Almeida diz que “os médiuns estudados evidenciaram alto nível socioeducacional, baixa prevalência de transtornos psiquiátricos menores e razoável adequação social. A mediunidade provavelmente se constitui numa vivência diferente do transtorno de identidade dissociativa. A maioria teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e estas, atualmente, se caracterizam por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia”.

18. Desta forma, constatou-se que os médiuns estudados apresentaram boa saúde mental, apesar dos sintomas de visões ou interferências de pensamentos alheios, que não são sintomas de loucura, mas outro tipo de vivência, chamada pelos espíritas de mediunidade.

19. O psiquiatra da Universidade da Virginia Ian Stevenson, junto a outros cientistas, publicou pesquisa científica descrevendo um notório caso que classificaram como “possessão”, relatando que quando no transe, a paciente fornecia não apenas evidência de conhecimento, mas também complexo conjunto de comportamento e habilidades característicos de Shiva, uma mulher desconhecida da paciente e seus parentes que viveu a uma centena de quilômetros de distância e havia morrido recentemente. Através da “possessão”, foram apresentadas vinte e três pessoas conhecidas de Shiva, além de uma variedade de comportamentos compatíveis com a personalidade da falecida, tais como modo de vestir, esnobismo de casta, senso de humor e maior fluência literária.

20. O programa de pesquisa VERITAS, que é realizado no Laboratório de Pesquisas Avançadas da Consciência e Saúde – pertencente ao Departamento de Psicologia da Universidade do Arizona – foi criado principalmente para analisar a hipótese da sobrevivência da consciência após a morte do corpo humano. Tal programa é dirigido pelo Dr. Gary Schwartz e já resultou na publicação de vários artigos científicos e livros que segundo Schwartz e seus colegas de pesquisa, fornecem evidências de que a comunicação entre seres humanos e espíritos realmente existe.


21. Em uma pesquisa científica feita em 2008 nos Estados Unidos por cientistas da Universidade de São Paulo, da Universidade Federal de Juiz de Fora, da Universidade Federal de Goiás, da Universidade da Pensilvânia e da Universidade Thomas Jefferson, usando recursos da neurociência moderna foram medidas as atividades cerebrais de dez médiuns brasileiros saudáveis, enquanto psicografavam. Os cientistas constataram que durante os transes psicográficos, as áreas menos ativadas no cérebro dos médiuns foram as que são as mais ativadas enquanto qualquer pessoa escreve em estado normal de vigília (ou seja, as áreas relacionadas ao raciocínio, ao planejamento e à criatividade), sendo que os textos psicografados resultaram mais complexos que os produzidos em estado normal de vigília.

22. Como a pesquisa registra, nos textos psicografados os médiuns produziram mensagens espelhadas – escritas de trás para frente –, redigiram em línguas que não dominavam bem, descreveram corretamente ancestrais dos cientistas que os próprios cientistas diziam desconhecer, entre outras coisas. Para tais cientistas, os resultados da pesquisa são compatíveis com a hipótese que os médiuns defendem – a de que autoria dos textos psicografados não seria deles, mas sim dos espíritos comunicantes.

23. Em artigo publicado na revista científica “Neuroendocrinology Letters” em 2013, cientistas compararam conhecimento médico recente com doze obras psicografadas pelo médium Chico Xavier atribuídas ao espírito André Luiz e identificaram nelas diversas informações corretas altamente complexas sobre a fisiologia da glândula pineal e que só puderam ser confirmadas cientificamente cerca de 60 anos após a publicação das obras.

24. Apesar de todos os estudos citados, a posição científica atualmente estabelecida é a de que não há – em acordo com os rigores do método científico – fatos estabelecidos que suportem de forma inequívoca a existência de espíritos – e por tal da mediunidade espírita. Os termos ciência e científicos que figuram junto aos estudos dos espíritos são por tal empregados em sentido lato – onde pressupõe que as fronteiras que separam os conhecimentos científico e não científico não são precisamente delineadas – e não em senso estrito – que vigora atualmente no meio acadêmico-científico e que define-se por meio de fronteira muito bem estabelecida.

25. Além das polêmicas que envolvem a ciência, há polêmicas em torno da mediunidade baseadas nos argumentos apresentados por outras religiões cristãs, dizendo-se que a Bíblia condena a prática da necromancia (que difere da mediunidade) em Deuteronômio 18.

26. Esse argumento encontra contradição no próprio fato de que já foram psicografados muitos textos com ensinamentos de acordo com os de Jesus. Para a doutrina espírita, a Bíblia não condena a prática mediúnica, pois esta seria um fenômeno natural.