sábado, 18 de abril de 2015

Teorias conspiratórias envolvendo a morte do Papa João Paulo I: fato ou farsa?!

O Papa João Paulo I (foto abaixo) morreu em setembro de 1978, pouco tempo depois de completar um mês de sua eleição para o papado. A superbrevidade de seu pontificado e as contradições, erros e imprecisões na versão do Vaticano sobre esta suscitam até hoje especulações a respeito de que ele teria sido vítima de uma conspiração. Apesar da falta de provas e conclusões, há muita fantasia na hipótese de que o Papa tenha sido envenenado durante a noite.


A fundamentação da teoria de conspiração...
O Vaticano afirma que o Papa João Paulo I morreu de um ataque cardíaco em sua cama, e que a autópsia não foi realizada devido à oposição de alguns membros da família. Alguns aspectos desta declaração oficial, no entanto, foram mais tarde contrariados: não foi o irlandês John Magee (então bispo), que foi secretário pessoal dos papas Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II, a primeira pessoa a encontrar o cadáver do Papa, mas sim uma das freiras que cuidavam de afazeres domésticos, como foi conhecido em 1988; a família do falecido papa, em 1991, revelou que não faleceu em sua cama, mas em seu escritório; e, além disso, teria sido feito uma autópsia, de acordo com outros relatórios. Estas inconsistências oficiais, juntamente com outros fatores de desenvolvimento econômico, têm dado origem a teorias conspiratórias que apontam para um envenenamento do pontífice.

Um dos inúmeros boatos surgidos após a morte de João Paulo I diz que seu pontificado entrara em choque com ideias e interesses da Opus Dei. Sua saída repentina do cenário daria espaço a setores da Igreja ligados à Cúria Romana mais empenhados em combater as tendências socialistas então emergentes no clero em vários países. Alguns especuladores reforçaram a tese com a eleição de João Paulo II, um pontífice conservador em relação a diversas questões, como contracepção e política. De fato, o ainda bispo Luciani desejara ao menos uma revisão das posições tradicionais da Igreja católica sobre estes temas, consultando-se com especialistas em reprodução humana e com filósofos e pensadores de distintas religiões – provocando o chamado ecumenismo.

Existem também algumas teses que defendem que os negócios pouco claros entre o Banco Ambrosiano e o Banco do Vaticano foram o motivo do seu assassinato perpetrado pela alta hierarquia da Igreja em cumplicidade com a máfia ligada ao Banco Ambrosiano e as irmandades secretas maçônicas, já que o objetivo deste Papa seria a denúncia de crimes econômicos e tencionando começar esse desafio pessoal dentro da Igreja.

Alguns teóricos da conspiração ligam a morte de João Paulo (em setembro de 1978) com a imagem do “bispo vestido de branco”, dito ter sido visto por Lúcia Santos e os seus primos Jacinta Marto e Francisco Marto, durante as visitas de Nossa Senhora de Fátima em 1917 . Em uma carta a um colega, João Paulo disse que ele estava profundamente comovido por ter encontrado com Lúcia e prometeu realizar a Consagração na Rússia.


O livro de David Yallop...
O jornalista britânico David Yallop publicou em 1984, após longa pesquisa, a obra “Em nome de Deus”, na qual oferece pistas sobre uma possível conspiração para matar João Paulo I. Ao dar-se crédito às fontes de Yallop (que incluem inúmeros clérigos e habitantes da cidade do Vaticano), João Paulo I esboçara, no início de seu breve pontificado, uma investigação sobre supostos esquemas de corrupção no Banco do Vaticano, que possuía muitas ações do Banco Ambrosiano.

O Banco do Vaticano perdeu cerca de um quarto de bilhão de dólares. Logo após eleger-se Papa, ele ficara a par de inúmeras irregularidades no Banco Ambrosiano, então comandado por Roberto Calvi, conhecido pela alcunha de “Banqueiro de Deus” por suas íntimas relações com o Vaticano. Esta corrupção foi real e é conhecida por ter envolvido o chefe do Banco do Vaticano, Paul Marcinkus, juntamente com Calvi. Calvi era um membro da “P2”, uma loja maçônica italiana ilegal. Ele foi encontrado enforcado numa ponte em Londres, depois de ter desaparecido antes da corrupção se tornar pública. Sua morte foi inicialmente dada como suicídio, e um segundo inquérito – ordenado por sua família –, em seguida, retornou a um “veredicto aberto”.


Entre os envolvidos no esquema estaria o então secretário de Estado do Vaticano e Camerlengo, Jean Villot, o mafioso siciliano Michele Sindona, o cardeal de Chicago John Cody e o bispo Paul Marcinkus, então presidente do Banco do Vaticano. As nebulosas movimentações financeiras destes não passaram despercebidas pelo “Papa Sorriso”. Também são citados supostos membros da loja maçônica “P2”, como Licio Gelli (deve-se ressaltar que pertencer a essa comunidade secreta sempre foi e ainda é considerado motivo de excomunhão pela Igreja católica).

A Cúria Romana como um todo teria rechaçado o perfil humilde e reformista de João Paulo I. Diversos episódios no livro corroborariam essa tendência: o “Papa Sorriso” sempre repudiou dogmas, ostentação, luxo e formalidades; para ficar num exemplo, ele detestava a sedia gestatória, a liteira papal (argumentando que, por mais que fosse o líder espiritual de quase mil milhões de católicos, não se sentia importante a ponto de ser carregado nos ombros de pessoas). Após muita insistência curial, ele passou a usá-la.

Yallop cita a digitalina (veneno extraído da planta com o mesmo nome) como a droga usada para pôr fim ao pontificado de João Paulo I. Essa toxina demora algumas horas para fazer efeito; Yallop defende que uma dose mínima de digitalina, acrescentada à comida ou à bebida do Papa, passaria despercebida e seria suficiente para levar ao óbito. E para o autor de “Em nome de Deus”, teria sido muito fácil, para alguém que conhecesse os acessos à cidade do Vaticano, penetrar nos aposentos papais e cometer um crime dessa natureza. Outras obras de investigação também lançam a teoria de envenenamento: o livro “El día de la cuenta”, do sacerdote espanhol Jesús López Sáez, pressume que o Papa foi envenenado com uma forte dose de um vasodilatador. Sem se deter na morte de João Paulo I, Yallop ainda insinuou que João Paulo II seria conivente com todas as irregularidades detectadas no pontificado de seu breve antecessor.


O livro de John Cornwell...
As teorias defendidas por Yallop foram parcialmente refutadas pelo escritor John Cornwell, também britânico, em seu livro “A thief in the night”. Em diversos tópicos, como o horário e a causa da morte do Papa, Cornwell contesta as afirmações e provas de Yallop e oferece sua versão, mantendo o debate aberto. Os que defendem as teses expostas em “Em Nome de Deus” afirmam que Cornwell seria ligado a personalidades influentes da Cúria Romana, embora apontem como ocorrências incomuns a estranheza da maneira como se deu o rápido embalsamamento do papa, as notícias contraditórias sobre quem encontrou o corpo e o fato de João Paulo I não ter sido devidamente atendido por médicos através de procedimentos para a prevenção de sua morte e a corrupção que envolvia Marcinkus.

A visão de Abbé Georges de Nantes...
O teólogo tradicionalista Abbé Georges de Nantes passou grande parte de sua vida construindo um caso de assassinato contra o Vaticano, coletando depoimentos de pessoas que conheceram o Papa, antes e após a sua eleição. Seus escritos entram em detalhes sobre os bancos e sobre a suposta descoberta de João Paulo I de alguns sacerdotes maçons no Vaticano, juntamente com uma série de suas propostas de reformas e devoção a Fátima.


Suposta previsão de Nostradamus...
Em sua obra “Centúrias”, o profeta francês do século 16 Nostradamus teria previsto a morte de um Papa em circunstâncias muito semelhantes às de um suposto assassinato de João Paulo I (profecia relatada na Centúria 10, Quadra 12), embora não estejam específicas outras circunstâncias, como nome e época: “O Papa eleito será traído por seus eleitores, / Esta pessoa prudente será reduzida ao silêncio. / Eles o matarão porque ele era muito bondoso, / Atacados pelo medo, eles conduzirão sua morte à noite”.