terça-feira, 28 de abril de 2015

Epopeia de Gilgamesh: a gênese do mito bíblico de Noé?! Fato ou farsa?!

Hoje vamos falar um pouco sobre um dos mais antigos, mais estudados, mais controversos e mais ricos mitos de toda a história da Humanidade. Trata-se da Epopeia mesopotâmica de Gilgamesh: controvertida porque se assemelha em toda sua narrativa à história de Noé, descrita na Bíblia judaico-cristã. No entanto, o heroísmo de Gilgamesh foi descrito pelos mesopotâmios setecentos anos antes que Noé aparecesse no primeiro livro bíblico, do Gênesis. Muitos fundamentalistas cristãos dizem que a história envolvendo Gilgamesh é uma cópia de Noé, datada pelos cientistas para que as pessoas desacreditassem na Bíblia, o “livro das verdades”.


A Epopeia de Gilgamesh é um antigo poema épico (contando aventuras) da região da Mesopotâmia (onde hoje se situam o Iraque e o Kuwait), sendo uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial. Crê-se que sua origem seja vinda de diversas lendas e poemas sumérios sobre o mitológico deus-rei Gilgamesh, que foram compilados e reunidos num só livro no século 7 a.C. pelo Rei Assusbanípal. Antes disso, esse mítico herói era lembrado nas rodas de contos orais pelos mais velhos, transmitidos para os mais jovens, desde pelo menos 1700 a.C.

Gilgamesh (imagem abaixo) tinha tanta importância para a cultura suméria que ganhou dois títulos: “Aquele que viu as profundezas” (por conta de uma narrativa em que ele vai até o inferno e voltara vivo) e “Aquele que se eleva sobre todos os reis da terra” (por causa da sua incrível inteligência e esperteza). De acordo com alguns arqueólogos, Gilgamesh provavelmente foi um monarca do fim do segundo período dinástico inicial da Suméria, por volta do século 26 a.C.


Toda epopeia gira em torno da relação entre Gilgamesh e seu companheiro de todas as horas, Enkidu, um homem selvagem criado pelos deuses como um equivalente de Gilgamesh, para que o distraísse e evitasse que ele oprimisse os cidadãos de Uruk. Juntos passam por diversas missões, que acabam por descontentar os deuses; primeiro vão às Montanhas do Cedro, onde derrotam Humbaba, seu monstruoso guardião, e depois matam o Touro dos Céus, que a deusa Ishtar havia mandado para punir Gilgamesh por não ceder às suas investidas amorosas.

A parte final do épico é centrada na reação de transtorno de Gilgamesh à morte de Enkidu, que acaba por tomar a forma de uma busca pela imortalidade. Gilgamesh intenta uma longa e perigosa jornada para descobrir o segredo da vida eterna e vem a consultar Utnapishtim, o herói imortal. Depois de ouvir Gilgamesh, o sábio proclama: “A vida que você procura nunca encontrará. Quando os deuses criaram o homem, reservaram-lhe a morte, porém mantiveram a vida para sua própria posse”. Gilgamesh, no entanto, foi celebrado posteriormente pelas construções que realizou, e por ter trazido de volta o conhecimento perdido de diversos cultos para Uruk, após seu encontro com Utnapishtim. A história é conhecida por todo o mundo, em diversas traduções, e seu protagonista, Gilgamesh, se tornou um ícone da cultura popular.

Em algumas traduções da história, Gilgamesh pode ser confundido por outro herói sumério que o Judaísmo “tomou emprestado” para a Bíblia: Utnapishtim, o primeiro homem da terra, criado pela deusa Ishtar para viver com sua companheira, sem pecado, num jardim maravilhoso, até terem comido a fruta do pecado. Esse épico entrou para a Bíblia cristã como sendo a história da criação do mundo, e a vinda à terra de Adão e Eva.

A história que envolve “Noé”...
Gilgamesh (ou Utnapishtim, dependendo da consulta da fonte), na sua busca por sabedoria, fica a par de que os deuses estavam desgostosos com a humanidade, e concederam a vida a Gilgamesh e sua família, desde que construíssem uma enorme arca para abrigar as espécies de animais e plantas, pois a terra seria varrida por um aguaceiro sem precedentes.

Segundo o épico, o nosso herói sumério fez tudo o que foi ordenado. O aguaceiro veio, ele protegeu as plantas e os casais de animais. Depois de sete dias navegando sem destino por um mar sem fim, um deus avisou-lhe que era hora de procurar por terra firme e repovoar a terra. Assim, com sua inteligência, Gilgamesh soltou um corvo que não retornou (sinal que ele encontrara terra firme, encontrando carniça dos mortos da enchente devastadora para comer).


A semelhança com o conto bíblico é incrível. De acordo com os antropólogos, teólogos revisionistas e historiadores, os judeus ouviram muito dessa história enquanto estiveram convivendo com mesopotâmios no Cativeiro da Babilônia; desta forma, agregaram para si a história do dilúvio vencida por Gilgamesh (ou Utnapishtim). Muitos teólogos conservadores afirmam que as datas estão erradas, e não há comprovação que este mito tenha sido originado séculos antes do fato verdadeiro vivido por Noé; o objetivo deles é não diminuir os fatos bíblicos nem a grandiosidade de Deus, por isso a Epopeia de Gilgamesh ainda encontra muitos críticos vorazes.

Voltando ao mito...
Seu registro mais completo provém de uma tábua de argila escrita em língua acádia do século 8 a.C. pertencente ao Rei Assurbanípal, tendo sido no entanto encontradas tábuas com excertos que datam do século 20 a.C., sendo assim o mais antigo texto literário conhecido, e seria o equivalente mesopotâmico de Noé. A primeira tradução moderna foi realizada na década de 1860 pelo estudioso inglês George Smith.

Esse registro, herdado por tradição oral dos tempos pré-históricos, de acordo com algumas teorias, terá tido a sua origem no final da última era glacial. Outras teorias dizem que foi um tombamento do eixo planetário, causado ou pela gravidade de um meteoro que passou perto da terra durante a época ou pela inversão do polo magnético da terra que acontece de tempos em tempos.

Versões de fragmentos atuais desenterrados pela arqueologia atestam, entre outras histórias, a lenda de dois seres que se amaram, Isa e Ani, geraram uma filha, Be. Porém Ani esteve na floresta de Humbaba procurando por Isa, e dizem que por algum motivo nunca mais se viram. As inscrições em cuneiforme (principalmente o assírio) atestam que ele nunca desistiu de procurar Isa, e este casal é o fundador do amor mesopotâmico.