quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Imagem de Edessa: a história do “outro sudário” de Jesus Cristo...

Ao logo de toda história religiosa do Cristianismo aqui no Ocidente, já ouvimos falar no Santo Sudário de Turim (foto abaixo), que foi tema de duas postagens antigas neste blog. De acordo com a tradição, que a Igreja católica ainda não confirmou, o pano composto pelo Santo Sudário de Turim teria sido aquele usado para enrolar o corpo de Jesus Cristo depois de sua crucificação, e milagrosamente pegou as marcas da face e do corpo do Messias cristão.


Hoje vamos conhecer a história do “outro sudário”, desta vez venerado pelas igrejas do Oriente e pelas Igrejas católicas ortodoxas da Grécia, da Rússia, de Israel, do Líbano e do Egito. De acordo com a lenda cristã, a Imagem de Edessa (foto abaixo) é um sudário, tal como o Sudário de Turim, transformado numa relíquia sagrada, na forma de um retângulo de tecido, sobre o qual uma imagem milagrosa do rosto de Jesus está impresso. É também uma das imagens classificadas como acheiropoieta (do grego “não feita pelas mãos”).


Na Igreja ortodoxa da Grécia, a imagem é conhecida como “Mandylion Sagrado”, uma palavra em grego medieval e que não é utilizada em nenhum outro contexto. O “Keramidion” é o nome de um “título sagrado” impresso junto com a face de Cristo e milagrosamente transferido através do contato com o “Mandylion”. Na Igreja ortodoxa, festeja-se este ícone em 16 de agosto, data do translado de Edessa, na Turquia, para Constantinopla (atual cidade de Istambul, também na Turquia).

História da lenda...
De acordo com a lenda, o Rei Abgar, de Edessa, escreveu para Jesus pedindo-lhe para que viesse curá-lo de uma enfermidade. Abgar recebeu uma resposta de Jesus recusando o convite, mas prometendo no futuro uma visita de um de seus discípulos. A lenda foi relatada pela primeira vez no início do século 4 d.C. por Eusébio de Cesareia, que afirma ter transcrito e traduzido a carta em si a partir dos arquivos em siríaco do Rei de Edessa, apesar de não fazer menção à imagem O apóstolo – um dos setenta discípulos – Tadeu de Edessa teria ido a Edessa levando as palavras de Jesus, pelas quais o rei foi milagrosamente curado.

Após o primeiro relato de Eusébio, a imagem aparece novamente em 384 d.C. no relato de Egeria, uma peregrina ou da Gália ou da Hispânia, a quem foi dada a honra de uma visita especial pelo bispo de Edessa, que também lhe forneceu relatos milagrosos sobre o salvamento de Edessa das mãos dos persas e lhe permitiu avaliar em primeira mão transcrições das correspondências entre Abgar e Jesus, devidamente rebuscados e embelezados. Parte dos relatos dela sobre suas viagens, em cartas para o seu convento, sobreviveram. “Ela inocentemente supôs que esta versão seria mais completa que a outra, mais curta, que ela lera numa tradução em sua terra natal, presumivelmente uma trazida para lá por um peregrino ainda mais antigo”. A sua visita, acompanhada ainda de um tradutor, foi completa. O bispo é citado: “Vamos agora ao portão, aonde o mensageiro Ananias chegou com a carta sobre a qual falávamos”. Não há, porém, menção alguma de uma imagem que Egeria tivesse visto durante a sua cuidadosa inspeção de três dias em Edessa e redondezas.


O próximo estágio no desenvolvimento da lenda está na Doutrina de Tadeu, de cerca de 400 d.C., que introduz um pintor da corte na delegação enviada por Abgar até Jesus e que pintou um retrato Dele para levar de volta ao seu mestre: “Quando Ananias, o guardião dos arquivos, conversou com Jesus, por conta de ele ser o pintor do rei, ele pintou um retrato de Jesus com tintas escolhidas e o levou de volta para Abgar, o rei, seu mestre. E quando Abgar viu o retrato, ele o recebeu com grande alegria e o colocou com grande honra num dos palácios reais”.

As últimas lendas da imagem contam que como os sucessores de Abgar reverteram ao paganismo, o bispo colocou a imagem milagrosa dentro de uma parede e colocou uma lanterna brilhante diante dela, selando ambos por trás de um azulejo. A imagem foi novamente encontrada após uma visão, na noite de uma invasão persa. O azulejo foi encontrado com a imagem milagrosamente reproduzido nele e a lanterna ainda brilhava diante do tecido. O bispo de Edessa então se utilizou de fogo no qual óleo que pingava de imagem fora derramado para destruir os persas.


Acredita-se que a imagem teria reaparecido em 525 d.C., durante uma enchente no Daisan, um rio tributário do Eufrates que passava através de Edessa. Esta enchente foi mencionada nas obras do historiador da corte, Procópio de Cesareia. Durante as obras de reconstrução, um tecido com a face de um homem foi descoberto escondido numa parede sob um dos portões de Edessa. Por volta de 544 d.C., quando Procópio de Cesareia relatou a recuperação de Edessa das mãos dos sassânidas, ele atribuiu o evento aos poderes milagrosos da carta enviada de Jesus para Abgar.

O primeiro registro da existência de uma imagem física na antiga cidade de Edessa foi de Evágrio Escolástico, em sua obra “História Eclesiástica” (de 593 d.C., e que reporta um retrato de Cristo, de origem divina) cujos poderes milagrosos ajudaram na defesa de Edessa contra os persas em 544 d.C.

Assim, podemos traçar o desenvolvimento da lenda desde uma carta, sem imagem, em Eusébio, até uma imagem pintada por pintor da corte em Addai; então a um milagre causado por uma carta relatada em Procópio, que se tornou um milagre causado por uma imagem milagrosa criada sobrenaturalmente quando Jesus limpou seu rosto no tecido em Evágrio. Este foi o último e mais recente estágio da lenda que foi aceita na Igreja ortodoxa, a imagem de Edessa que foi “criada por Deus e não produzida pelas mãos do homem”. Esta ideia de um ícone com origens sobrenaturais já foi atribuída a outros ícones ortodoxos.


Eventos posteriores...
O “Mandylion” sagrado desapareceu novamente após os sassânidas terem conquistado Edessa em 609 d.C. Uma lenda local, relatada ao historiador Andrew Palmer quando ele visitou Urfa em 1999, relata que o tecido ou mortalha de Jesus foi atirado num poço no que hoje é a grande mesquita da cidade. A tradição cristã, exemplificada na “Historiarum compendium”, de Georgios Kedrenos, não está de acordo. João Escilitzes recontando como, em 944 d.C., quando a cidade foi sitiada pelo general bizantino João Curcuas, a imagem foi trocada por um grupo de prisioneiros muçulmanos. Nesta época, a imagem foi enviada para Constantinopla, onde ela foi recebida em meio a uma grande festa pelo imperador romano Lecapeno, que a depositou na capela do Farol no Grande Palácio de Constantinopla. Não por coincidência, o mais antigo ícone bizantino conhecido do “Mandylion” ou “Santa Face”, preservado no Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, foi datado como sendo de 945 d.C.

O “Mandylion” permaneceu sob a proteção imperial até o saque da cidade na Quarta Cruzada, em 1204, quando se acredita que tenha sido levada, junto com muitos outros tesouros, para a Europa, ainda que a Imagem de Edessa não seja citada neste contexto em nenhum documento contemporâneo. Um fragmento desta relíquia, ou ela inteira, era uma parte de um grupo de tesouros vendido por Balduíno 2 para Luís 9 da França, em 1241, e abrigado na Sainte Chapelle de Paris.


A Imagem de Edessa, ao contrário do Sudário de Turim, foi perdida no tempo e no espaço, mas ainda continua sendo venerada como relíquia pelas Igrejas ortodoxas orientais. Somente na região metropolitana de Moscou há 33 capelas, igrejas e paróquias dedicadas ao “Mandylion” sagrado. No entanto, com o tempo, outros panos milagrosos foram sendo agregados a este culto religioso, como a Santa Face de Gênova e a Santa Face de São Silvestre.