terça-feira, 12 de agosto de 2014

Considerações sobre duas polêmicas: terapia de reorientação sexual e transtorno de relacionamento sexual...

Hoje vamos abordar dois assuntos polêmicos dentro de uma mesma pauta: orientação sexual e psicologia, tudo isso em ressonância com a religiosidade. Trataremos da terapia de reorientação sexual (a “cura gay”) e o transtorno de relacionamento sexual, assuntos muito debatidos principalmente pelos círculos religiosos que defendem a causa, principalmente a “cura gay” por acreditarem que a homossexualidade seja uma doença. Abordaremos os principais pontos desta “terapia de conversão” (como também é conhecida) e sobre o transtorno de relacionamento sexual que, aí sim, se enquadra como uma doença psicológica e psiquiátrica, de acordo com o CID-10.


A terapia de reorientação sexual compreende um conjunto de métodos que visam eliminar a orientação sexual homossexual de um indivíduo. Essas terapias podem incluir técnicas comportamentais, cognitivo-comportamentais e psicanalíticas, além de abordagens médicas, religiosas e espirituais. Estes tipos de procedimentos têm sido fonte de intensa controvérsia nos Estados Unidos, no Brasil e em outros países. Entre os resultados negativos relatados sobre esse tipo de terapia estão transtornos de ansiedade (20%), pulsão suicida (10%), depressão (40%), impotência sexual (10%) e transtorno do relacionamento sexual (10%).

A Associação Americana de Psiquiatria afirma que debates políticos e morais sobre a integração dos homossexuais na sociedade norte-americana têm obscurecido os dados científicos sobre mudanças de orientação sexual por pôr no tema os motivos e até mesmo o caráter dos indivíduos em ambos os lados da questão. Os principais defensores contemporâneos desse tipo de terapia tendem a ser grupos cristãos conservadores e outras organizações religiosas. A principal organização que defende formas seculares de terapia de conversão é a Associação Nacional de Pesquisa e Terapia da Homossexualidade; no entanto, a entidade frequentemente faz parcerias com grupos religiosos para sobreviver.

As principais organizações médicas e científicas norte-americanas têm expressado preocupação com a terapia de conversão e consideram-na potencialmente prejudicial. A Associação Americana de Psicologia define esse procedimento como uma terapia que tem como objetivo mudar a orientação sexual de uma pessoa. A Associação Americana de Psiquiatria afirma que esse procedimento é um tipo de tratamento psiquiátrico baseado na suposição de que a homossexualidade per se é um transtorno mental ou com base na suposição a priori de que um paciente deve mudar a sua orientação sexual homossexual.


O consenso de longa data das ciências comportamentais e sociais e dos profissionais de saúde mental e geral é de que a homossexualidade, per se, é uma variação normal e positiva da orientação sexual humana. Pesquisas já realizadas têm falhado consistentemente em fornecer qualquer base empírica ou científica para considerar a homossexualidade como uma doença ou anormalidade. Existem pessoas que passam por terapias de reorientação sexual e tendem a ter visões religiosas fortemente conservadoras que as levam a procurar uma forma de mudar a sua orientação sexual. Não há estudos de suficiente rigor científico para concluir que os recentes esforços de mudança de orientação sexual têm sido eficazes. Embora dados de confiança sobre a segurança dessas terapias sejam extremamente limitados, algumas pessoas relataram terem sido prejudicadas por esse tipo de técnica.

As terapias de reorientação sexual têm gerado controvérsia devido às tensões entre os valores mantidos por algumas organizações religiosas, de um lado, e aqueles mantidos por organizações profissionais, científicas e de direitos LGBT, de outro. Alguns indivíduos e grupos têm promovido a ideia de que a homossexualidade é um sintoma de defeitos ou falhas no desenvolvimento espiritual e moral e têm argumentado que tais terapias, incluindo esforços psicoterapêuticos e religiosos, poderiam alterar os sentimentos e comportamentos homossexuais. Tais técnicas têm um grave potencial de prejudicar as pessoas que as buscam porque apresentam a visão de que a orientação sexual de jovens LGBT é uma doença mental ou um distúrbio e porque muitas vezes enquadram a incapacidade de mudança da orientação sexual dessas pessoas como um fracasso pessoal e moral.

História da tentativa frustrada da “cura gay”...
Tentativas médicas de alterar a homossexualidade já incluíram tratamentos cirúrgicos como a histerectomia, ovariectomia, clitoridectomia, castração, vasectomia, cirurgia do nervo pudico e a lobotomia. Métodos baseados em substâncias incluíram o tratamento hormonal, tratamento de choque farmacológico e tratamento com estimulantes sexuais e antidepressivos sexuais. Outros métodos incluíram a terapia de aversão, a redução da aversão à heterossexualidade, tratamento de eletrochoque, grupo de terapia, hipnose e psicanálise.

Durante o período do Nazismo, o governo da Alemanha tentou “tratar” homossexuais através de métodos como tratamentos hormonais e relações sexuais forçadas com prostitutas. Para a ideologia nazista, os homossexuais deveriam ser “recuperados” para poderem voltar à prática reprodutiva. No entanto, diante da ineficácia das tentativas de cura, todos os homossexuais masculinos envolvidos nas terapias foram castrados para impedi-los de sentir qualquer tipo de prazer sexual, e as lésbicas passavam por sessões de estupros coletivos para que engravidassem e essas crianças eram mandadas para orfanatos a fim de se transformarem em “soldados da Alemanha vencedora”.

Nas duas últimas décadas do século 19, uma visão diferente começou a predominar nos círculos médicos e psiquiátricos, julgando esse comportamento (homossexual) como um indicativo de um tipo de pessoa com uma orientação sexual definida e relativamente estável. No final do século 19 e 20, os modelos patológicos da homossexualidade ainda eram padrão.

No dia 17 de maio de 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da sua lista de doenças mentais, a Classificação Internacional de Doenças. O governo do Reino Unido seguiu o exemplo em 1994, seguido pelo Ministério da Saúde da Rússia e pelo Conselho Federal de Psicologia do Brasil em 1999, além Sociedade Chinesa de Psiquiatria em 2001. Os conselhos da Associação Americana de Psiquiatria (AAP) já havia votado, por unanimidade, a retirada da homossexualidade como um distúrbio da seção de desvios sexuais do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em 1973. Esta decisão foi confirmada oficialmente por 58% dos membros da AAP em 1974, que votaram para substituir o diagnóstico para uma categoria mais suave de “distúrbio de orientação sexual”, que foi então substituído para “homossexualidade ego-distônica”, que, em 1986, foi excluída.


Posição da comunidade científica...
As terapias de mudança de orientação sexual são bastante discutidas, pois não há provas científicas que a orientação sexual de uma pessoa possa ser alterada através de terapias, sendo a sexualidade humana definida, provavelmente, por fatores biológicos. Existem alguns grupos, a maioria de fundamentação cristã conservadora, que afirmam que a orientação sexual de uma pessoa é influenciada pelo tipo de educação comportamental que foi realizada na infância e poderia ser alterada mais tarde. Estudos da psicologia, no entanto, afirmam que a orientação sexual não é algo controlável.

Apesar de quase um século de especulação psicanalítica e psicológica, não há nenhuma evidência substantiva para apoiar a sugestão de que a natureza da criação dos filhos ou que as primeiras experiências da infância desempenham qualquer papel na formação da orientação fundamental de uma pessoa heterossexual ou homossexual. Parece que a orientação sexual é de natureza biológica, determinada por uma complexa interação de fatores genéticos e do ambiente uterino precoce. A orientação sexual não é, portanto, uma escolha. Atualmente, não há consenso científico sobre os fatores específicos que levam um indivíduo a tornar-se heterossexual, homossexual ou bissexual, incluindo possíveis efeitos biológicos, psicológicos ou sociais da orientação sexual dos pais. No entanto, as evidências disponíveis indicam que a grande maioria das lésbicas e adultos homossexuais foram criados por pais heterossexuais e que a grande maioria das crianças criadas por pais gays e lésbicas crescem como heterossexuais.

Atualmente, há um grande número de evidências que afirmam que ser homossexual ou bissexual é compatível com uma saúde mental e um ajustamento social completamente normais e saudáveis. Por isso, as principais organizações de saúde mental não incentivam as pessoas a tentar mudar a sua orientação sexual de homossexual para heterossexual. De fato, essas intervenções são eticamente suspeitas, porque elas podem ser prejudiciais para o bem-estar psicológico daqueles que passam por elas.

A Associação Americana de Psiquiatria condena este tipo de terapia e afirma que profissionais éticos evitam tentativas de mudar a orientação sexual dos indivíduos. O psicólogo Douglas Haldeman escreveu que esse tipo de procedimento se dá por meio de técnicas que incluem tratamentos aversivos, como a aplicação de choques elétricos nas mãos e/ou genitais e medicamentos indutores de náuseas administrados simultaneamente com a apresentação de estímulos homoeróticos, recondicionamento masturbatório, visualização, treinamento de habilidades sociais, terapia psicanalítica e intervenções espirituais, tais como oração e grupo de apoio e pressão. No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) proibiu esse tipo de terapia em 22 de março de 1999.


Posicionamento contrário e polêmico...
Em 2001, Robert Spitzer apresentou um trabalho controverso na reunião anual de 2001 da Associação Americana de Psiquiatria em que argumentava ser possível que alguns indivíduos altamente motivados conseguissem mudar a sua orientação sexual de homossexual para heterossexual. Um artigo do “Washington Post” indicou que Spitzer tinha 45 minutos de entrevistas telefônicas com 200 pessoas que afirmavam que as suas respectivas orientações sexuais mudaram de homossexual para heterossexual. Spitzer afirmou que a sua pesquisa mostrou que algumas pessoas podem mudar de homossexual para heterossexual. Entretanto, Spitzer concluiu que embora a mudança pudesse ocorrer, ela é “provavelmente muito rara”.

A AAP emitiu um comunicado oficial desmentindo a pesquisa de Spitzer, salientando que o trabalho não havia sido revisado e afirmando que não há nenhuma evidência científica publicada em apoio a eficácia da terapia reparativa como um tratamento para mudar de orientação sexual. A pesquisa de Spitzer foi criticada por seus métodos de amostragem e os critérios usados para definir o sucesso da terapia. Em 2012, no entanto, Spitzer se desculpou publicamente pela conclusão de sua pesquisa.

No entanto, mesmo sendo proibida nos consultórios psicológicos, a “cura gay” ganhou espaço dentro das igrejas, principalmente em movimentos cristãos neopentecostais. Muitas igrejas afirmam realizar a “terapia de conversão” através de orações, conversas com pastores, supostas terapias de grupo, amuletos, águas bentas etc. Mas alguns indivíduos que se disseram curados da homossexualidade, hoje conhecidos no meio como “ex-ex-gays”, dizem que durante o processo passaram por preconceitos, ameaças e tiveram episódios de ansiedade, desejo reprimido, depressão e impulso suicida.


Transtorno de relacionamento sexual...
Transtorno do relacionamento sexual é quando a identidade ou a orientação sexual (hetero, homo ou bissexual) leva a dificuldades no estabelecimento e manutenção de um relacionamento com um parceiro sexual. Aí sim podemos falar em “doença” relacionada à orientação sexual, e não a orientação sexual em si. O CID-10 inclui uma nota sobre como orientação sexual não é uma desordem nem transtorno, o transtorno se restringe ao sofrimento causado pelo relacionamento sexual insatisfatório independente da combinação (hetero relacionando-se com homo, homo relacionando-se com bi, bi relacionando-se com hetero etc.).

Por conta da cultura intolerante a diversidade sexual é comum que homens e mulheres com desejos homossexuais se relacionem com parceiros do sexo oposto como forma de serem melhor aceitos socialmente. Porém o desejo homossexual quase sempre persiste e causa insatisfação sexual no casamento.


Em uma pesquisa realizada nos anos 80 pelo Instituto Kinsey de Sexologia, com mais de 5 mil homens e mulheres que se diziam heterossexuais houve uma surpresa: somente 37% das mulheres afirmaram que em um momento da vida tiveram algum tipo de contato homossexual com outra mulher, enquanto que o contato homossexual entre homens chegou aos 62%.

Em uma outra pesquisa com homens casados com desejo sexual por outros homens, os pacientes tinham 38 anos em média quando começaram a terapia, eram casados em média há 13 anos e tinham em média dois filhos. Nenhum foi bem sucedido em eliminar esse desejo, 97% sabiam que possuíam desejo por homens antes de casar, 61% tinham vida sexual insatisfatória, 36% fizeram terapia para eliminar esse desejo, 94% tiveram casos fora do casamento e apenas 19% das esposas sabiam que o marido tinha desejo por homens antes do início da terapia.

Ainda segundo essa pesquisa dos anos 80, cerca de 13% dos homens heterossexuais, casados, com filhos, confessaram que ainda sentiam desejo de fazer sexo com outros homens. Entre as mulheres, também heterossexuais, casadas, e com filhos, a taxa cai para 6%. Entre os gays e lésbicas pesquisados, somente 0,4% desejam fazer sexo com parceiros do sexo oposto.


Tratamento para o transtorno de relacionamento sexual...
Apesar de os psicólogos serem proibidos em quase todo o planeta de realizarem “terapia de conversão”, é importante que eles realizem tratamento para diminuir os sofrimentos causados pelo transtorno de relacionamento sexual, pois o indivíduo se esconde em uma máscara e gostaria de sair dela, levando uma vida normal e aberta sem aparências.

O tratamento pode ser feito com terapia individual onde o indivíduo discute sobre seus desejos e como satisfazê-los causando o mínimo sofrimento para seu(sua) parceiro(a) ou como terapia de casal em que ambos discutem e decidem como preferem lidar com essa situação. Existe um procedimento conhecido como Método Coleman que tem cinco objetivos básicos: (1) fazer a pessoa sentir-se mais confortável com a sua sexualidade; (2) examinar mitos e estereótipos relacionados à homossexualidade, bissexualidade e homossexualidade; (3) educar sobre o funcionamento da sexualidade humana; (4) lidar com questões de performance sexual em relações com o mesmo sexo e com o sexo oposto; e (5) explorar alternativas mais saudáveis e funcionais de realizar os desejos sexuais do paciente.

Dentre as soluções possíveis estão: terminar o relacionamento, organizar ménage à trois com parceiros sexualmente atraentes a ambos, manter um relacionamento aberto sexualmente, interpretar papéis diferentes na cama para satisfazer os desejos e fetiches do parceiro, manter um relacionamento a três, fazer trocas de casais bissexuais etc. Durante a terapia é importante desenvolver habilidades de assertividade e de assumir responsabilidade no paciente.


Geralmente o desejo de manter o relacionamento heterossexual apesar de desejos homossexuais é embasado em crenças religiosas conservadoras que devem ser discutidas e questionadas cuidadosamente para que o paciente não desista da terapia. O objetivo nesse caso é formar novas crenças mais saudáveis e tolerantes em relação à diversidade. Diversas entidades religiosas aceitam a diversidade sexual de forma tolerante e podem ser recomendadas para auxiliar o paciente a se realizar espiritualmente e sexualmente simultaneamente. No Brasil, psicólogos que se proponham a fazer terapia de reorientação sexual devem ser denunciados ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) local onde será decidida sua punição.