quinta-feira, 17 de julho de 2014

O que você sabe sobre o Marquês de Sade, dono do termo sadomasoquismo?! Fatos e farsas sobre este personagem histórico...

Acreditamos que todos nós já ouvimos falar nas palavras “sádico”, “masoquista” e “sadomasoquista”. Mas hoje, neste post, o nosso foco é na palavra “sádico”, ou “sadismo”. Mas por quê? Porque vamos falar um pouco do “dono” desta expressão, o francês Marquês de Sade (foto abaixo), uma personagem extremamente controversa da história por conta dos seus pensamentos e sua excentricidade. Veremos em sua história o que é fato e o que é farsa.


1. Seu nome completo era Donatien Alphonse François de Sade, conhecido popularmente e imortalizado como Marquês de Sade, nascido em Paris, em 1740, vindo a morrer em 1814;

2. Marquês de Sade esteve preso diversas vezes por diversos motivos, inclusive tendo sua prisão decretada pessoalmente por Napoleão Bonaparte. Muitas das suas obras polêmicas foram escritas enquanto estava encarcerado;

3. Do seu nome e seu comportamento considerado “bizarro” nasceu o termo psicopatológico “sadismo”, que define a perversão sexual de ter prazer na dor física ou moral do parceiro com quem está se relacionando. Alguns exemplos podem ser: espancamentos, humilhações, ofensas, tapas, socos etc.;

4. Na outra parte da história da sexualidade temos o termo “masoquismo”, que se refere à pessoa que encontra prazer e satisfação com um sádico, ou seja, quem tem prazer em ser violentado física e psicologicamente. Assim, seria o inverso do sádico;

5. Marquês de Sade foi duramente perseguido durante dois episódios da história francesa: a monarquia e a burguesia pós-Revolução Francesa governada por Napoleão. Tudo isso por causa do retrato da sociedade que costumava pintar em seus romances eróticos, geralmente que poderiam escandalizar a todos com as riquezas e detalhes e excesso de sadismo e de masoquismo;

6. Muitas pessoas até hoje acreditam que o Marquês de Sade tenha sido somente um aristocrata excêntrico e tarado. Entretanto, além de muito inteligente, escritor e dramaturgo, foi também filósofo baseado no Iluminismo. Por isso, de acordo com os filósofos, lidos enquanto teoria filosófica, os romances eróticos e escandalosos de Sade mostram um mundo novo, sem preconceitos, livre de moralismos religiosos e com excesso de racionalismo;

7. Curiosamente, Marquês de Sade era adepto do ateísmo, o que era, na época da França monárquica, um crime de Estado, o que o levou à prisão. Outro ponto importante é que o autor, em suas obras, fazia apologia a alguns crimes, tais como assaltos, espancamentos, estupros, abortos clandestinos, prática ilegal da medicina etc.;

8. Em suas obras, Sade, como livre pensador, usava-se do grotesco para tecer suas críticas morais à sociedade urbana. Evidenciava, ao contrário de várias obras acerca da moralidade uma moralidade baseada em princípios contrários ao que os “bons costumes” da época aceitavam; moralidade essa que mostrava homens que sentiam prazer na dor dos demais e outras cenas, por vezes bizarras, que não estavam distantes da realidade;

9. Alguns biógrafos da história do Marquês de Sade dizem que seu maior crime foi ser extremamente verdadeiro em uma época de hipocrisia, onde havia uma falsa moral e uma falsa religiosidade, e que Sade nada mais fez a não ser descrever os acontecimentos sexuais secretos das festas da aristocracia europeia da época, inclusive entre membros da Igreja, e por essa razão causou tanto incômodo;

10. Em seu romance “120 dias de Sodoma”, por exemplo, nobres devassos abusam de crianças raptadas encerrados num castelo de luxo, num clima de crescente violência, com coprofagia, mutilações e assassinatos, o que realmente acontecia com frequência nos palácios do interior da França, quando pobres meninas de sete a doze anos eram estupradas e mortas por nobres;


11. Duas personagens criadas por Sade foram suas ideias fixas durante décadas: Justine (que se materializou em várias versões do romance, ocupando muitos volumes), a ingênua defensora do bem, que sempre acaba sendo envolvida em crimes e depravações, terminando seus dias fulminada por um raio que a rompe da boca ao ânus quando ia à missa, e Juliette, sua irmã, que encarna o triunfo do mal, fazendo uma sucessão de coisas abjetas, como matar uma de suas melhores amigas lançando-a na cratera de um vulcão ou obrigar o próprio Papa a fazer um discurso em defesa do crime para poder tê-la em sua cama;

12. As orgias com o Papa Pio VI em plena Igreja de São Pedro, no Vaticano, fazem parte da trama sacrílega e ultrajante do romance “Juliette”, com a fala do pontífice transformada em agressivo panfleto político: “A dissertação do Papa sobre o crime”;

13. Muitas pessoas creem que os romances do Marquês de Sade são puramente contos eróticos cheios de situações grotescas e nojentas, sem nenhuma moralidade. Entretanto isso é falso. O nosso personagem do post de hoje tinha o costume de inserir ideias políticas e filosóficas por detrás dos seus enredos, para que ficassem na mente dos seus leitores, geralmente jovens curiosos com o mundo do sexo e da pornografia;

14. O panfleto intitulado “Franceses, mais um esforço se quiserdes ser republicanos”, que pregava total ruptura com o Cristianismo e com a Monarquia, foi por ele publicado entre as tramas eróticas no seu romance “A filosofia na alcova”, no qual um casal de irmãos e um amigo libertino “educam” uma jovem para a vida da prostituição e da libertinagem, mostrando como algumas pessoas tinham total aversão, na época, aos conceitos morais religiosos;

15. De acordo com muitos especialistas em história, filosofia, pedagogia, literatura e psicanálise, o Marquês de Sade não pode ser enquadrado em um estereótipo de ser humano com problemas psíquicos e taras sexuais, mas sim um ser humano extremamente esperto e inteligente que colocou suas ideias filosóficas – que geralmente só ficavam presas a tratados complicadíssimos – ao acesso do povo comum em meio àquilo que era muito procurado na época: pornografia e erotismo, uma vez que tais textos de sua autoria faziam muito sucesso entre os jovens da aristocracia;

16. Tanto o surrealismo como a psicanálise encamparam a visão da crueldade egoísta que a obra de Sade expõe despudoradamente. Um exemplo de influência do Marquês de Sade na arte do século 20 é o cineasta espanhol Luis Buñuel, que em vários filmes faz referências explícitas a Sade: em “A Idade do Ouro”, por exemplo, retrata a saída de Cristo e dos libertinos do castelo das orgias de “Os 120 dias de Sodoma”;

17. O sadismo também está explícito nas imagens mais surrealistas produzidas por Buñuel, como a navalha cegando o olho da mulher em “O Cão Andaluz”. Também há fortes referências sadianas em “A Bela da Tarde” e em “Via Láctea”, no qual aparece uma cena em que Sade converte uma indefesa menina ao ateísmo;

18. No campo da psicanálise e da psicologia, Marquês de Sade transformou-se em figura para explicar relações em que as partes têm prazer no sofrimento alheio (sadismo) ou em sofrer tal prática (masoquismo). Assim, as correntes psicológicas e psicanalíticas fundamentaram-se em estudos que englobam relacionamentos sadomasoquistas, considerados doentios;

19. A influência de Sade pode ser notada também em autores como o dramaturgo francês Jean Genet, homossexual, ladrão e presidiário, que retoma muitos dos temas do Marquês, também desenvolvidos em ambientes carcerários franceses;

20. A questão da suposta homossexualidade de Sade (“Terá sido Sade um pederasta?”) foi formulada pela escritora francesa Simone de Beauvoir no clássico ensaio “É preciso queimar Sade?”. A autora conclui pela heterossexualidade de Sade, que sempre amou mulheres tolerantes a suas aventuras, embora tivesse um comportamento sexual atípico, defendendo o coito anal e chegando a pagar criados para sodomizá-lo publicamente em suas orgias, das quais a primeira mulher, Renné de Sade, teria participado;


21. Atualmente, estudiosos da cultura e da literatura compartilham a opinião de Simone de Beauvoir, creditando o comportamento e a imaginação literária do autor de “120 dias de Sodoma” a neuroses relacionadas a parafilias, como o gosto pelo lixo e pela sujeira, que na ficção sadeana desembocam na apologia do crime e na erotização da fealdade e das mais atrozes torpezas;

22. Na realidade, muitos especializados em literatura e em história acreditam que o Marquês de Sade tenha se casado justamente por causa dos papéis e ditames sociais, em uma época que a homossexualidade era totalmente criminalizada na França, e por causa de seus escândalos Sade passou muitos anos no cárcere;

23. A possível prova da homossexualidade do Marquês é que, durante seus devaneios e orgias sexuais, as mulheres eram extremamente humilhadas, ofendidas e violentadas enquanto ele era passivo em relações sexuais com homens – geralmente criados de suas propriedades, órfãos abandonados que o faziam em troca de dinheiro etc.;

24. Muitos psicólogos afirmam que o Marquês de Sade tenha colocado no papel tudo aquilo que vivia às escondidas e gostaria de mostrar ao mundo, principalmente as suas excentricidades sexuais e os mais sórdidos crimes que gostaria de cometer – se é que não houvesse realmente cometido;

25. Na velhice, já separado de Renné, sua primeira mulher, mas, como sempre, preso por causa de suas ideias e de seu comportamento libertino, foi amparado pela atriz Marie-Quesnet, que se mudou com ele para o Hospício de Charenton. Nessa época, sob o olhar tolerante de Marie-Quesnet, enamorou-se da filha de uma carcereira que tinha 14 anos quando o conheceu. Todos esses fatos estão rigorosamente documentados por Gilbert Lely, o mais importante biógrafo de Sade, compilador de suas cartas.