terça-feira, 8 de julho de 2014

À moda do imperador: considerações e curiosidades sobre Dom Pedro I...

Hoje vamos falar um pouco da figura mais mítica do nacionalismo brasileiro, Dom Pedro I, símbolo de um nacionalismo estranho, pois era português, mas grande figura da nossa história por ter consolidado com mãos de ferro o poder em um território gigantesco que poderia se despedaçar em várias republiquetas. Dono de vários boatos e histórias, hoje falaremos sobre as curiosidades que envolvem este homem que é símbolo de heroísmo, traição marital, excesso de hormônios e um sangue fervente correndo pelas veias.


1. Dom Pedro I foi quem inaugurou a monarquia independente brasileira, e para quem não sabe, também foi rei em Portugal logo depois de deixar o Brasil, lá sendo coroado sob o nome de Dom Pedro IV. Portanto, é uma figura importante para a história de dois países;

2. No dia 07 de setembro de 1822, declarou a independência do Brasil em relação a Portugal depois de uma terrível dor de barriga, indo se aliviar às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Montava uma mulinha e vestia roupas simples e leves, como um camisão branco e calças cor cáqui;

3. Dom Pedro I era o quarto filho, o segundo filho homem, e não era esperado que um dia viesse a subir ao trono, mas em 1801 seu irmão mais velho morreu e ele entrou na linha sucessória direta ao trono português;

4. Dom Pedro não tinha muita atenção da sua mãe, Carlota Joaquina, que preferia paparicar o filho mais novo, Dom Miguel. Por outro lado, era o filho predileto de seu pai, Dom João VI, com quem sempre esteve junto na infância. Dizem que quando Pedro chegou à adolescência e se afastou do pai aos poucos, Dom João entrou em profunda depressão e nunca mais foi o mesmo;

5. Curiosamente, antes de Napoleão Bonaparte abalar as coroas europeias e a Família Real portuguesa fugir para o Brasil, Dom João VI tinha planos de enviar para cá Dom Pedro a fim de controlar os ventos de independência que já sacudiam várias colônias hispânicas sob a égide do Iluminismo e da Revolução Francesa;


6. Desde pequeno, o príncipe gostava de brincar de batalhas com seus irmãos, e não é à toa que depois de adulto entrou para as forças armadas e, em 1825, um inglês dissesse que nunca vira um chefe de Estado com melhor manejo para as armas;

7. Durante muito tempo, Pedro I tinha como distração os exercícios físicos (por isso ganhou um corpo torneado e moreno do sol), a marcenaria e os cavalos. Esse interesse pelos cavalos não se restringia a apenas montar, mas também cuidava dos mesmos, arreando, dando banho e até mesmo os ferrando;

8. Outro ponto escandaloso da sua história é que costumava se divertir noites adentro em bares e bordéis da cidade do Rio de Janeiro, com grande apetite sexual. Era comum que no dia seguinte sua mãe mandasse escravos procurarem o filho bêbado em algum canto do Centro do Rio, ou na cama de alguma prostituta;

9. De acordo com os historiadores, Dom Pedro não era bonito, mas tinha músculos evidentes, sorriso no rosto, grande simpatia e dentes bem cuidados. Mesmo assim era comandado pela emoção e não pela razão, quase sempre entrando em brigas de rua quando jovem. Ainda era impulsivo, romântico, autoritário, ambicioso e grande sedutor. Também tinha grande generosidade com seus amigos, amantes e familiares;

10. O príncipe era extremamente simples – por isso, às vezes, era considerado de modos grosseiros para um membro de Família Real –, e enquanto a sociedade da época como um todo considerava qualquer forma de trabalho manual algo relegado somente a escravos, Dom Pedro não se importava em trabalhar com as próprias mãos. Fazia questão de manter uma relação direta com o povo, e sentia prazer em estar entre gente comum, sempre andando pelas ruas da cidade do Rio;


11. Outro ponto característico da personalidade do imperador era sua tagarelice. Estava sempre a conversar e a falar com alguém, mesmo que fosse escravo ou qualquer criado. Às vezes, quando se sentia sozinho, ia para a rua conversar com alguém da plebe, o que assustava os viajantes europeus;

12. Dom Pedro I não acreditava em diferenças raciais e muito menos em uma presumível inferioridade do negro como era comum à época. O imperador deixara clara em uma carta a sua opinião sobre o tema: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”;

13. Dom Pedro I foi um governante, em geral, muito à frente da sua época, o que causava incômodos terríveis na hipocrisia das sociedades brasileira e europeia, como, por exemplo, sendo o Brasil na sua época um dos primeiros países do mundo a descriminalizarem a homossexualidade;

14. Outro detalhe interessante é que Dom Pedro costumava quebrar protocolos, o que, como dito anteriormente, surpreendia os viajantes europeus que o achavam com maneiras “grosseiras”. O imperador aboliu, por exemplo, que os súditos fizessem reverência a ele retirando o chapéu quando ele passasse pelas ruas e vielas. Mas não podemos jamais esquecer que Dom Pedro era dono de vaidades e egos gigantescos por ser o preferido de seu pai, para o ódio do seu irmão;

15. Apesar de ser considerado grosseiro em seus modos (para os padrões europeus da época), Pedro I era um homem enciclopédico. Até o fim da sua vida era costume reservar duas ou três horas do seu dia à leitura. Sabia falar seis idiomas (português, latim, espanhol, inglês, francês e alemão), adorava matemática, zoologia, escrevia poesias como distração, compunha músicas quando estava sozinho, sabia tocar viola, violão, cravo e piano, além de manter uma vasta biblioteca pessoal;


16. Dom Pedro compôs vários hinos, tais como o Hino da Maçonaria Brasileira (ele era maçom), o Hino Brasileiro (mais tarde conhecido até hoje como o Hino da Independência) e o Hino Nacional Português, que deixou de sê-lo em 1911;

17. Apesar da visão costumeira que se trata nos livros escolares, Dom Pedro não era o semianalfabeto que sempre se imaginou. De fato não recebeu a educação esperada para um futuro chefe de Estado, mas ainda assim fora muito melhor do que a recebida pela maior parte dos seus contemporâneos;

18. Em relação aos seus casamentos, Dom Pedro nunca foi um marido exemplar, ao contrário do modelo de pai, sempre presente na educação dos seus filhos legítimos e ilegítimos. Nos seus casamentos sempre fora um marido infiel, sempre passando as noites em bordéis, bares, quartos com escravas, além da figura mais conhecida que é a da sua amante Marquesa de Santos;

19. Por ter um comportamento egocêntrico, apesar de ser uma pessoa simpática, Dom Pedro I fechou a Constituinte a fim de implantar o absolutismo em território americano, e, para isso, inventou o quarto poder, o Moderador, que era sua figura, para trabalhar junto com o Executivo, o Legislativo e o Judiciário;

20. Dom Pedro fazia parte da Maçonaria, e através dela sofreu enorme influência, como a vontade de proclamar a independência do Brasil e montar uma Constituição nos moldes das Constituições da França e dos Estados Unidos, mas com desenhos gerais de monarquia absolutista;



21. Durante a confusão política que se instalou no Brasil em 1823, na Constituinte para elaboração da nossa primeira Constituição, que ficaria pronta e promulgada em 1824, alguns deputados federalistas (que buscavam o regime republicano) chegaram a alegar que Dom Pedro no poder era totalmente ilegal, pois deveria ser um brasileiro no comando da nação, e não um português;

22. Não é à toa que as cores do Brasil foram escolhidas por Dom Pedro I, o verde e o amarelo. Não foram cores aleatórias, mas que na época causaram incômodo entre os separatistas. Pedro ainda se via português, com uma família monarca na Europa. O nosso verde representa a monarquia portuguesa (antiga cor oficial dela) e o nosso amarelo, a monarquia austríaca (monarquia pertencente à segunda esposa de Dom Pedro);

23. A partir de 1824, Dom Pedro não só descriminalizou a homossexualidade no território brasileiro como fez a prática da liberdade de religião, que na verdade, já era prática comum entre os protestantes, muçulmanos e judeus, principalmente no Recife, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro;

24. Por ser uma figura importante, imponente e muito popular, muitas pessoas não imaginam que outras coroas foram oferecidas a Dom Pedro, a fim de que pusesse ordem nos territórios onde poderia reger. Assim, foram oferecidas a Pedro as coroas da Grécia, de Portugal (após a morte de Dom João VI), da Áustria, da Espanha (trazendo mais uma vez a possibilidade da União Ibérica), e um possível trono argentino. Isso porque Dom Pedro ficou conhecido como “defensor dos povos” em várias partes do mundo;

25. Uma das figuras mais proeminentes durante a vida de Dom Pedro no Brasil foi a Marquesa de Santos, tinhosa e independente, semianalfabeta, fazia valer a sua vontade política e influência sobre o monarca. Outro detalhe interessante está em alguns museus do Rio e de São Paulo: as cartas eróticas trocadas entre ambos, quando Pedro estava em diligência pelo interior do país;


26. Quando o Marquês de Barbacena foi enviado à Europa a fim de encontrar uma segunda esposa para Dom Pedro I, depois que sua primeira esposa havia morrido, este passou por várias humilhações de diversas cortes reais, pois a fama de mulherengo do monarca brasileiro já havia invadido todo o continente europeu, e as recusas eram sempre iminentes;

27. A popularidade brasileira de Dom Pedro I caiu vertiginosamente depois de passar a comandar dois países ao mesmo tempo: o Brasil e Portugal, através do seu fantoche, a filha Dona Maria, coroada rainha de Portugal. Por conta disso, os brasileiros descontentes exigiram a renúncia do trono por parte de Pedro I, pois agora estava confirmado o problema: um estrangeiro no trono brasileiro não trazia nenhuma forma de nacionalismo, principalmente quando sua filha e sua terra-natal passam por uma guerra civil gigantesca;

28. Apesar de levar uma vida com muitos exercícios físicos, Dom Pedro sempre foi dado a bebedeiras e excessos sexuais, e nunca cuidou da sua alimentação, às vezes baseada em álcool. Por falta de cuidados próprios, morreu aos 36 anos vítima de tuberculose, uma doença extremamente mortal na época. Por causa de suas várias amantes, muitos dizem que o imperador do Brasil poderia, também, ter portado sífilis, a Aids da época;

29. Pedro I foi enterrado no Panteão dos Braganças, em Lisboa, onde estava toda a sua família e, a pedido, seu coração foi enviado para a cidade do Porto, também em Portugal. Foi nesse momento que muitos brasileiros questionaram o suposto “falso amor” de Dom Pedro ao nosso país. Entretanto, somente em 1972 que seus restos mortais foram transladados para São Paulo, onde hoje se encontra no Museu do Ipiranga;

30. Entre fevereiro e setembro de 2012 foram realizadas pela Faculdade de Medicina da USP, sob sigilo, exumações nos restos mortais de Dom Pedro I e suas duas esposas, revelando estatura e detalhes físicos. Descobriu-se, por exemplo, que o imperador tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente inutilizou um de seus pulmões – fato que pode ter agravado a tuberculose que o matou. Os ferimentos constatados foram resultado de dois acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), em 1823 e 1829, ambos no Rio de Janeiro;


31. Curiosamente, no caixão de Dom Pedro não havia nenhuma comenda ou insígnia brasileira entre as cinco medalhas encontradas. O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como general português, vestido com botas de cavalaria, medalha que reproduzia a Constituição de Portugal e galões com formato da coroa do país ibérico. A única referência ao período em que governou o Brasil está na tampa de chumbo de um de seus três caixões: a gravação Primeiro Imperador do Brasil, ao lado de Rei de Portugal e Algarves;

32. Ao abdicar em 1831, o Brasil que Dom Pedro deixou era a maior potência latino-americana. O Exército tinha cerca de 25 mil homens, a Marinha detinha mais de oitenta modernos navios de guerra. As demais nações republicanas da América Latina sofriam com intermináveis guerras civis, golpes de Estado, ditaduras, desmembramentos territoriais;

33. O maior legado de Dom Pedro foi ter garantido a integridade territorial de um Império de proporções continentais, permitindo aos habitantes de regiões longínquas do norte na nascente do Rio Ailã, em Roraima, ao sul no arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, ao leste em Ponta do Seixas, na Paraíba e a oeste, na nascente do Rio Moa no Acre, considerarem-se hoje pertencentes a uma única nacionalidade: a brasileira;

34. Os corpos exumados, examinados pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, ajudaram a desmentir algumas teses reproduzidas em livros de história. Por exemplo, os exames descobriram que a imperatriz Dona Leopoldina não tinha nenhum osso quebrado, o que teria sido causado após uma queda de escada em decorrência de briga com o marido;

35. Outra história famosa e verídica envolvendo Dom Pedro é que este mandou construir um túnel subterrâneo na cidade do Rio, ligando a Quinta da Boa Vista, residência oficial do imperador, à casa da sua amante, Marquesa de Santos, num trajeto de pouco mais de um quilômetro debaixo de jardins e ruas;


36. O acesso ao famoso túnel está fechado desde os anos 70, quando a estrutura de crescimento da cidade do Rio de Janeiro começou a comprometer a estrutura do túnel, que hoje é inacessível por causa das estruturas das casas antigas nos arredores do palácio e do museu;

37. De acordo com alguns historiadores que estiveram estudando o Museu do Primeiro Reinado (antiga casa da Marquesa de Santos) e o Museu da Quinta da Boa Vista (antiga residência do imperador), a história do túnel é uma lenda criada na década de 60, quando foram encontrados alçapões escondidos nos dois edifícios, e caminhos que poderiam ligar um ao outro, mas esses “caminhos” eram extensões da senzala, e não rota de fugas amorosas extraconjugais de Dom Pedro;

38. Outro boato é que Dom Pedro jogou a primeira esposa, Dona Leopoldina, escadaria abaixo, estando grávida, sendo que ela teria fraturado um osso. Isso tudo em frente à Marquesa de Santos. Entretanto, os registros históricos e os exames feitos recentemente na USP mostram que isso é uma lenda que foi elaborada pelos republicanos ainda no século 19 para dizimar a figura de Dom Pedro, mostrando-o como um déspota dentro de casa. Detalhe: Leopoldina estaria grávida, perdeu a criança e logo depois não teria resistido e veio a falecer dias depois;

39. Muitos pesquisadores e estagiários do Museu Nacional dizem que o prédio é fantasma. Muitos afirmam terem visto o fantasma de Dona Leopoldina circulando pelos corredores do palácio sem a menor cerimônia, inclusive ajudando alguns pesquisadores em fatos, indicando onde buscar as informações no Arquivo Público ou na Biblioteca Nacional. O assunto não coloca medo entre os pesquisadores, que já convivem há décadas com as frequentes supostas aparições de imperatriz consorte do Brasil, que assinou a nossa independência antes de Dom Pedro invoca-la em São Paulo;

40. Os eventos bizarros que ocorrem no museu não param por aí. Certa vez, um historiador tirava fotos pelos corredores do palácio para saber mais sobre as fantasmagóricas aparições. E eis que, aos pés da escada onde Leopoldina teria rolado, fotografou uma coisa estranha: uma fumaça. Seria novamente o vulto da imperatriz? Muitos acreditam que sim.