sábado, 14 de junho de 2014

Algumas considerações sobre a figura histórica de Tiradentes. Fatos e farsas da história...

Hoje vamos falar um pouco sobre algumas verdades envolvendo um herói nacional, homenageado no Panteão dos Heróis Nacionais, em Brasília. Mesmo com todo o mérito envolvendo a tentativa de libertação do país através da Inconfidência Mineira, a figura de Joaquim José da Silva Xavier continua envolta de muitos mitos e mistérios, e é o que vamos debater hoje.


Mesmo após a independência do Brasil, Tiradentes permaneceu uma personalidade histórica relativamente esquecida e obscura, uma vez que o nosso país escolheu o sistema político monárquico e a Inconfidência Mineira queria a proclamação de uma república genuinamente brasileira, e não uma monarquia absolutista regida por sangue português.

Durante a fase do Segundo Império Brasileiro, a coroa de Dom Pedro II também não aceitava a figura de Tiradentes pelo motivo de seu movimento ter tido veias republicanas, mas não abolicionista, como algumas pessoas acreditam. Naquela época, a figura do alferes era perigosa, pois o Código Penal de 1830 previa penas graves para quem conspirasse contra o imperador e contra a monarquia, e Tiradentes era visto como uma figura inconveniente e conspiradora.

O “erro” imagético e o mito do mártir...
É muito comum vermos imagens de um suposto Tiradentes com cabelos longos, barba comprida e uma túnica branca. Entretanto esta é a imagem errada que a História perpetuou, uma vez que ele foi executado no período próximo à Páscoa. O que o sistema queria? Simplesmente que a população brasileira associasse a sua imagem a Jesus Cristo e a todo o martírio que Ele passou no período pascoal em nome de toda a humanidade. No caso, José Joaquim da Silva Xavier teria passado por um “terrível martírio em nome de um Brasil independente, livre e republicano”.


Um dos quadros mais famosos que representam essa imagem de mártir está acima, mostrando um Tiradentes sacrificado e condenado injustamente. Entretanto, outra imagem mais próxima à verdadeira imagem do nosso personagem encontra-se abaixo.


Ou seja, houve uma detalhada estratégia para que a população assimilasse a imagem de Tiradentes como um homem sofredor que pagou sozinho pelos “pecados” dos inconfidentes mineiros, uma vez que foi o único a ter pena capital por parte da Coroa Portuguesa. Houve toda uma estratégia para santificar sua imagem em nome de um nacionalismo ascendente no período logo após a Proclamação da República, pois até 1889 Tiradentes era um desconhecido da história brasileira.

O nascimento do mito...
Foi a República – ou, mais precisamente, os ideólogos positivistas que presidiram sua fundação – que buscaram na figura de Tiradentes uma personificação da identidade republicana do Brasil, mitificando a sua biografia. Como militar, o máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Na prisão, onde passou os últimos três anos de sua vida, os detentos eram obrigados a raspar barba e cabelo a fim de evitar piolhos.

Historiadores como Francisco de Assis Cintra e o brasilianista Kenneth Maxwell procuram diminuir a importância de Tiradentes, enquanto autores mineiros como Oilian José e Waldemar de Almeida Barbosa procuram ressaltar sua importância histórica e seus feitos, baseando-se, especialmente, em documentos sobre ele existente no Arquivo Público Mineiro.


O que se sabe é que somente no período militar a data de 21 de abril tornou-se feriado e Tiradentes passou a ser a mais alta figura do Panteão dos Heróis do Nacionalismo Brasileiro, juntamente com Dom Pedro I. Nesse mesmo período da nossa obscura história, enquanto pessoas eram torturadas nos porões das delegacias, os estudantes aprendiam Moral e Civismo, e nos livros sempre havia uma forte reverência a Tiradentes.

E a teoria de que ele, na verdade, não teria morrido enforcado?
Nos últimos anos tem circulado na internet uma teoria de que Tiradentes não teria morrido enforcado e não teria sido esquartejado, mas que teria fugido para a França e vivido lá por muitos anos, principalmente a partir de supostas assinaturas em documentos franceses. Entretanto, de acordo com os historiadores, isso é boataria; Tiradentes foi morto e esquartejado no Centro da cidade do Rio, onde hoje está localizada a Praça Tiradentes.

Essa teoria de que nosso personagem teria fugido é impossível porque a Coroa Portuguesa não deixava, naquele período, que navios se não portugueses aportassem no Brasil, e na época a França era terrível inimiga de Portugal. Portanto, seria muito mais fácil José Joaquim da Silva Xavier ter fugido para a Inglaterra, “nação amiga” da metrópole, cujos navios também podiam aportar aqui. De acordo com os historiadores, esse mito do Tiradentes vivo nasceu para criar nele uma aura de teoria da conspiração – que aparece aos montes, diariamente, na internet.