quinta-feira, 22 de maio de 2014

E se o Brasil tivesse sido colonizado pelos holandeses e/ou pelos franceses?!

Hoje nós vamos falar um pouco sobre dois temas extremamente complexos, mas que, às vezes, fazem a cabeça de pessoas com pouco senso histórico-político-sociológico. Trata-se de um ramo novo do estudo da História conhecido como “história alternativa”, que seria a metodologia do famoso “e se fosse diferente?”; essa metodologia tem ganhado força no campo da ficção científica, mas abre portas para debatermos temas bem específicos da nossa realidade historiográfica.

Durante a década de 80 era muito comum observarmos em sala de aula alguns professores reclamarem da situação em que se encontrava a economia do país e falarem que se nossa colonização tivesse sido francesa ou holandesa, a coisa seria diferente naqueles tempos e hoje em dia. Isso porque França e Holanda tentaram montar colônias por aqui algumas vezes. Mas a pergunta que fica: será que realmente seríamos diferentes com esses dois tipos de colonização? É o que vamos debater um pouco deste complexo sistema alternativo de historiografia e tomaremos exemplos palpáveis da geopolítica atual.


A colonização holandesa no Brasil...
No século 17, duas vezes a Holanda tentou constituir colônias no litoral nordeste do Brasil, sendo que na segunda vez obteve algum sucesso ficando durante alguns anos na capitania de Pernambuco, sendo a cidade do Recife a capital sob o comando de Maurício de Nassau. Durante a invasão holandesa (ou como alguns autores chamam, “Brasil holandês”), houve um incentivo às artes, construção de palácios do governo, liberdade de expressão, liberdade religiosa (quando foi construída no Recife a primeira sinagoga das Américas) e vários estudiosos e pintores vieram para este pedaço de chão brasileiro em missões.

Entretanto, o colonialismo holandês não era diferente do português praticado no restante do litoral. Éramos somente um entreposto comercial para negociação de escravos e açúcar, e meio caminho até a Ásia e a outra colônia holandesa, onde hoje temos a Indonésia (na época conhecida como Batávia).

Apesar da construção de palácios, escolas e pontes, a estrutura e da liberdade religiosa da colonização holandesa no Brasil, não podemos deixar de lado a lembrança de que permanecia a escravidão de negros e de índios e que tanta “liberdade” tinha como prefixo mostrar aos pernambucanos que era melhor terem os holandeses como aliados do que os portugueses, que nada faziam de obras públicas. Mas, na realidade, essas obras eram feitas somente para desfrute dos mais ricos, pois havia pedágios nas pontes.


A colonização francesa no Brasil...
Também no Brasil tivemos, também por duas vezes, as tentativas dos franceses calvinistas de formarem colônias no nosso território. A primeira em 1555, com a primeira fundação do Rio de Janeiro, refundado por portugueses vencedores dez anos depois; e a segunda, no Maranhão, sendo a cidade de São Luís a única do Brasil fundada por franceses.

A colonização francesa sobre o território brasileiro tinha os aspectos religioso e econômico; os protestantes franceses (huguenotes) fundaram uma vila onde hoje é a cidade do Rio de Janeiro, e depois os católicos vieram a fundar São Luís do Maranhão como um entreposto comercial para a comercialização de açúcar.



O que podemos reparar é que as tentativas franco-holandesas de formação de colônias no território brasileiro não tinham como principal aspecto a habitação, como ocorria na Nova Inglaterra, com os calvinistas no nordeste do atual Estados Unidos. Havia toda uma preocupação em escravizar pessoas, extrair da terra o pau-brasil, exportar açúcar e tentar encontrar ouro e prata, o que já era realidade nas colônias americanas da Espanha. Não havia preocupação com a população, mas sim com a manutenção do latifúndio, da escravidão e dos privilégios da burguesia agrária.

Os resultados das colonizações...
Tentar resumir este assunto complexo em um post não é tarefa fácil. É um assunto que renderia livros e mais livros, com muitas visões de historiadores e dos fatos em si. Mas o que queremos é mostrar, ainda que resumidamente, que nem tudo seria um mar de rosas caso fôssemos realmente colonizados por franceses ou holandeses, como se supunha dizer na década de 80. Não seríamos um país de primeiro mundo falando holandês, muito menos seríamos uma potência francófona. Alguns historiadores estão certos ao afirmarem que a melhor invenção de Portugal foi ter feito o Brasil dar certo com uma unidade territorial imensa, com cultuas tão diferentes. Vejamos alguns exemplos dos nossos colegas franceses e holandeses.

A França teve suas colônias em dois pontos do continente americano: no norte, nos territórios hoje pertencentes ao Canadá e aos Estados Unidos, e no Caribe, principalmente no Haiti. Sob mãos de ferro, a colônia do Haiti era comandada por uma elite branca que vendia o açúcar a preço baixíssimo e usava a mão de obra negra como principal meio de trabalho. Após uma violenta revolta escrava, em 1804 o Haiti foi a primeira colônia latina a ficar independente. No entanto, hoje o país é o mais pobre do continente.

No século 19, a França também fez o neocolonialismo na África, na busca de mercado para seus produtos industrializados. O ápice chegou à Guerra de Independência da Argélia, nos anos 60 do século 20. Isso causou um número enorme de refugiados e mortos, enquanto a França também fazia de tudo para não largar sua colônia asiática, a Indochina, hoje Vietnã, Laos e Camboja.



Já a colonização holandesa não foi muito diferente. Apesar de não terem tido sucesso no Brasil, os holandeses obtiveram imensos lucros nas Antilhas e na Indonésia. O tipo de colonização não foi diferente: escravocrata, extrativista, com privilégios de uma elite europeia e branca, com enormes propriedades rurais com vista à exportação. Na Indonésia, a Holanda só “largou o osso” depois de 1949, depois de o povo local lutar contra a invasão japonesa na Segunda Guerra e uma luta sem fim pela independência político-administrativa.

O que podemos dizer é que a História não é uma ciência exata, mas sim passível de interpretações. Podem haver vários pontos a favor da colonização franco-holandesa no Brasil, mas com certeza são muito poucos perto das desvantagens que sofreram os outros países colonizados por estas potências europeias. Não digo que a colonização portuguesa tenha sido melhor, mas apenas afirmo que teríamos mais do mesmo, uma vez que o que imperava na Europa era uma luta de poder entre reinos à procura de um caminho mais fácil para especiarias asiáticas e o desejo que ter mais ouro e prata que a Espanha.