terça-feira, 29 de abril de 2014

Você conhece a história da última “bruxa” executada por ocultismo na Europa?!

Anna Göldi nasceu e morreu no território que hoje pertence à Alemanha. Viveu entre 1734 e 1782. Mesmo sendo muito pobre, acabou entrando para a história; não por conta de grandes feitos, mas por causa da ignorância e do preconceito que ainda habitavam no continente europeu na Idade Moderna. Anna Göldi entrou para a história como “a última bruxa a ser executada na Europa pela prática de bruxaria”.


Cenário em que ocorreu sua vida...
Logo após a Reforma Protestante, que separou o catolicismo em duas religiões distintas, a Europa entrou em verdadeiro caos religioso e político por conta dos seguidores de ambos os lados. O mais interessante é que tanto católicos quanto protestantes mantiveram sua fé embasadas em derrotar o que chamavam de práticas de bruxaria.

No movimento católico conhecido como Contrarreforma, a Santa Inquisição queimou vários protestantes, judeus e muçulmanos – todos acusados de praticarem bruxaria, serem contra as bulas papais e terem pacto com o diabo. Na mesma medida, na Alemanha, o movimento luterano, e na Suíça com o movimento calvinista, o protestantismo queimou muitas pessoas acusadas das mesmas práticas de bruxaria, o que culminou nos Estados Unidos no episódio trágico conhecido como “As bruxas de Salem”.

O pavor pelo desconhecido e pelas práticas tradicionais, entre elas a medicina homeopática, fazia com que qualquer um pudesse ser alvo desses julgamentos repletos de torturas. Tanto as igrejas católicas quanto as protestantes pediam aos seus fiéis que vigiassem os seus vizinhos, e por isso o clima de suspeitas foi aumentando em cada vila e em casa rua, em cada cidade e em cada família.

De acordo com a historiografia, muitos indivíduos acabaram sendo julgados, torturados e mortos através de falsas denúncias motivadas por invejas, fofocas, dívidas, descontentamentos, desavenças familiares etc. O mais interessante é que isso ocorria no período conhecido como Idade Moderna, onde se dizia que a razão e o Iluminismo governavam os seres humanos, enquanto que na Idade Média, período conhecido popularmente como escuridão do Ocidente, nada disso acontecia em enorme escala com uma “industrialização” dos processos religiosos.


Voltando à história de Göldi...
Göldi provinha de família humilde e trabalhava como empregada doméstica. Ela teve dois filhos, sendo que o primeiro morreu logo após o nascimento – como era comum à época por falta de vacinas e higiene. Mesmo assim, Anna Göldi foi acusada de infanticídio, condenada e punida.

Mais tarde viria a trabalhar como empregada na casa do médico, presidente de conselho, juiz e ministro de Johann Jakob Tschudi, pertencente a uma das mais ricas e influentes famílias do cantão de Glarus. De acordo com as alegações, Anna teria enfeitiçado o leite das filhas de Tschudi com agulhas. Além disso, membros da família Tschudi testemunharam que uma das filhas teria repetidamente cuspido agulhas. Recaiu sobre Anna a culpa por enfeitiçar uma das meninas e ela foi formalmente acusada por um tribunal protestante.


Sob tortura, Anna viria a admitir sua culpa por conjurar forças diabólicas – o que era comum acontecer: uso da tortura para conseguirem-se admissões. O conselho de Glarus condenou-a em 13 de junho de 1782 à morte pela espada. O veredito foi cumprido sem demoras e causou polêmica tanto na Suíça quanto na Alemanha. Na leitura do veredito a acusação de bruxaria foi removida e os autos do processo destruídos; Anna foi executada por envenenamento.

Partindo de análises de fontes até então desconhecidas, o jornalista Walter Hauser chega à conclusão de que Anna Göldi provavelmente mantinha um caso com seu amo Johann Jakob Tschudi e teria sido inclusive estuprada pelo mesmo. Já que adúlteros confessos não tinham a permissão de assumir cargos políticos, Tschudi teria provavelmente resolvido se livrar de Anna Göldi e iniciado o processo de bruxaria, que viria a terminar com a execução dela, muitas vezes gerando as “provas” contra as próprias filhas.

Assim sendo, Anna Göldi foi a última pessoa na Europa a ser condenada à morte por, formalmente, ser chamada de bruxa. Outros casos também foram julgados, mas os atos de bruxaria foram retirados do processo durante as torturas e julgamentos em um período que os Estados tinham religião oficial.

Em março de 2007 o governo cantonal e o conselho eclesiástico cantonal negaram uma Reabilitação de Anna Göldi por ocasião do 225º aniversário de sua morte, pois no consciente popular da população de Glarus ela já é tida como reabilitada. Para seu 225º aniversário de morte foi planejado a inauguração de um museu para a última bruxa da Europa. O Anna Göldi Museum encontra-se em Mollis e foi inaugurado em 22 de setembro de 2007.


No jornal “Zürcher Zeitung” foi publicada uma carta (foto acima) em forma de classificado emitido pelo cantão de Glarus em 09 de fevereiro de 1782 na qual a suposta bruxa era procurada:

O honorável estado de Glarus compromete-se por meio desta a pagar cem coroas reais de recompensa àquele que descobrir e trouxer à justiça Anna Göldi, abaixo descrita; através da presente as autoridades de mais alto posto e seus funcionários subalternos também são conclamados a ajudar de toda forma possível na apreensão deste pessoa; é de lembrar que ela cometeu o ato monstruoso de administrar incrivelmente uma porção de agulhas e outros objetos a uma inocente criança de oito anos de idade. Anna Göldi, da comuna de Sennwald, pertencente ao bailiado da Alta Sax e Forstek, na região de Zurique, aproximadamente 40 anos de idade, de estatura grande e robusta, rosto redondo e rosado, cabelos e sobrancelhas negras, tem os olhos meio adoentados, que se encontram geralmente avermelhados, sua aparência é abatida e fala dialeto sennwaldês, usa uma saia colorida à moda, uma camisa listrada azul com uma jaqueta azul de cordas, tschope damastênico cinza, meias brancas, uma capa negra, abaixo um chapelete branco e usa uma echarpe de seda preta. Data, 25 de janeiro de 1782”.