quinta-feira, 3 de abril de 2014

Victor de Aveyron, a história real do menino lobo das florestas...

Victor de Aveyron (nascido cerca de 1787, morreu em 1828) foi uma criança selvagem que foi encontrada na França em 1798, sendo adotado então pelo educador Jean-Marc Gaspard Itard. A história ganhou tons folclóricos com o tempo, com várias versões, chegando a ser confuso saber o que é realidade e o que é fantasia. Sua história virou tema de séries, filmes, telenovelas, desenhos animados etc. A grande maioria destas histórias têm como base os relatos deixados por Itard em relação a Victor de Aveyron.


No dia 09 de janeiro de 1799, uma estranha criatura surgiu dos bosques próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em posição ereta, se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém, imediatamente foi identificado como um menino de uns onze ou doze anos. Unicamente emitia estridentes e incompreensíveis grunhidos e parecia carecer do sentido de higiene pessoal, fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia. Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato próximo.

A princípio escapava constantemente e era difícil voltar a capturá-lo, agindo sempre como um animal. Negava-se a vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham. Nunca houve pais que o reclamassem. Portanto era um mistério; com isso, a polícia começou a suspeitar que o garoto fosse uma criança abandonada à própria sorte no bosque, com a intenção que morresse com fome ou devorado por feras; essa atitude era muito comum na época por causa da pobreza extrema logo após o conturbado período da Revolução Francesa.

O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de um espelho parece que viu sua imagem sem reconhecer-se a si mesmo. Em uma ocasião tratou de alcançar através do espelho uma batata que havia visto refletida nele (de fato, a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de várias tentativas, e sem voltar a cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro.


Um sacerdote que observava ao menino diariamente descreveu esse incidente da seguinte forma: “todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em nenhuma ideia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo”.

Posteriormente, o menino foi enviado para Paris, onde se ocorreram tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o banheiro, aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e morreu em 1828, quando tinha por volta de quarenta anos.


Há várias histórias das chamadas “crianças selvagens” em várias partes do mundo. Essas histórias corroboram com as psicologias da educação e do desenvolvimento ao afirmarem que nós nos tornamos humanos por conta da educação e da convivência com outros humanos parecidos conosco; aí está uma questão antropológica da força da cultura sobre os indivíduos.