quinta-feira, 13 de março de 2014

Você já ouviu falar no “efeito/fenômeno CSI”? São os maios mitos sobre laboratórios criminais nos seriados de TV...

Há uma verdadeira enxurrada de seriados norte-americanos baseados em crimes quase insuspeitos e indecifráveis, mas há uma enorme gama de proezas dos peritos criminais na solução de tantas charadas. Nos Estados Unidos já se chama isso de “efeito CSI” ou “fenômeno CSI”, até porque muitos jovens iludidos decidiram ingressar na carreira da perícia criminal.


Entretanto, como sabemos, os shows de televisão apelam para o exagero, sensacionalismo e desinformação, que no caso de “CSI” e seriados parecidos, é a falta de informação dos roteiristas e produtores em relação às verdadeiras práticas destes profissionais. Mesmo nos Estados Unidos há uma série de crimes sem solução quase caducando e sendo arquivados; em muitos condados os chefes de polícia não têm sequer necrotérios, apelando para as cidades vizinhas; nas cidades menores a polícia mal tem condições para trabalhar bem, sequer fazer perícias com o que os shows mostram ser tecnologia de ponta – que sequer existem de verdade!

O nome “efeito CSI” começou a ganhar forma quando os juízes criminais, acreditando naquilo que assistiam nos seus televisores, começaram a pedir o que os criminalistas chamavam de “provas impossíveis”: testes de DNA de pelo de cachorro, resultados de exames de DNA em até 72 horas, armas que não existem, peritos especializados em medicina, biologia e física etc. Recentemente, visando esclarecer a opinião pública, Tim Kupferschmid, diretor executivo da Sorenson Forensics, com 20 anos de experiência no uso do DNA em provas periciais, divulgou, através de release, os dez maiores mitos sobre laboratórios criminais em seriados televisivos.


Os exageros começam no olhar clínico dos astros destes shows, que somente ao olhar o cadáver já interpretam como morreu, como foi assassinado, o tipo de arma usado, a posição do criminoso no fato etc. Isso não existe e depende de uma série de exames de balística. Mas vamos aos mitos? Voilà!

1. A ideia de que laboratórios criminais podem reunir, preparar, testar e obter resultado de DNA e de outros testes forenses em 72 horas está totalmente errado! De acordo com Tim, “existe uma imensa fila de testes de DNA nos Estados Unidos com atrasos que vão de algumas semanas a anos”. A tecnologia que você vê na TV não existe no mundo real dos criminalistas, explica o especialista;

2. Um suspeito irá sentar-se em uma sala de interrogatório, usando as mesmas roupas que usou durante o crime – e resultados conclusivos chegam às mãos do interrogador no exato momento em que você começa a interrogá-lo. Não! Investigadores da cena do crime (CSI’s) irão esperar meses ou mesmo anos pelos resultados de DNA, garante Kupferschmid. Geralmente, em média, os investigadores demoram 72 horas para prenderem um suspeito – com isso, se ele não fugiu, já trocou de roupa várias vezes;

3. Os seriados no estilo CSI seguem casos do início ao fim e concluem as investigações magicamente em alguns dias. De acordo com Tim, tudo sonho. Alguns casos ficam arquivados por anos, e existem muitos outros casos sendo acompanhados simultaneamente. Segundo o especialista, os seriados fazem parecer que os investigadores têm uma dedicação exclusiva àquele crime do episódio, o que não acontece; muitos investigadores são sobrecarregados, investigando até 15 casos ao mesmo tempo;

4. Nos seriados, os personagens estão diretamente envolvidos com a investigação in-loco do crime, as blitzes, as detenções, os exames laboratoriais. Pura ilusão! A cena do crime é processada por agentes da lei e agentes estilo CSI dificilmente veem um suspeito ou mesmo o interrogam, ficando somente presos aos laboratórios de criminalística e balística;

5. Os agentes dos seriados conseguem obter DNA de qualquer superfície, desde que tenha algum material orgânico. De acordo com Kupferschmidt, podemos obter uma amostra de DNA de um indivíduo se ele roubou um carro e o dirigiu por horas a fio, mas não se ele simplesmente esfregou um objeto nas suas mãos. Nesse caso, teremos somente impressões digitais;

6. Geralmente as análises de DNA oferecem dois resultados: sim, a pessoa cometeu o crime, ou não, ele é inocente. Bem, isso só ocorre na televisão. Este DNA pode ser deixado na cena do crime muito tempo antes ou depois do mesmo, principalmente em se tratando de crimes domésticos, como os passionais. É necessário um bom investigador à moda antiga para determinar a culpa de um suspeito, que vai muito além de um simples resultado positivo ou negativo de DNA;

7. Os agentes dos seriados não somente obtêm o DNA com extrema facilidade e rapidez, mas ainda dizem se ele é proveniente de lágrima, saliva, sêmen, suor ou até mesmo restos de cadáveres queimados. De acordo com o especialista, isso não acontece – a não ser que o agente saiba que fora retirado DNA destes restos deixados pelo corpo, mas a cremação destrói completamente todos os elementos biológicos, inclusive o DNA;

8. Existiria uma base de dados de DNA e registros odontológicos e médicos de todos os cidadãos dos Estados Unidos. Mentira! De acordo com o estudioso, existem apenas pouco mais de dez milhões de perfis de DNA nas bases de dados dos Estados Unidos, que é um país com mais de 300 milhões de habitantes. E ainda mais: a fila de espera para coletar esses dados é imensa;

9. Quando se obtém uma coincidência nos perfis de DNA, os monitores dos computadores do laboratório apresentam letras piscantes em vermelho, declarando “uma coincidência de 99%” e mostrando uma foto da carteira de motorista. Nada disso! Segundo Tim, não há fotos nem informes sobre coincidências, apenas um código numérico que você deve anotar e buscar em outra base para saber quem é quem;

10. Os investigadores de séries do estilo CSI realizam análises de DNA beliscando uns snacks ou contando piadas para um colega. De acordo com Tim, não se come ou bebe enquanto testes são realizados, e é difícil bater um papo usando uma máscara cirúrgica e fazendo análises tão complexas.


O que mais impressiona, após vermos esses mitos, é que juízes – pessoas gabaritadas e extremamente estudadas – se impressionam com tecnologia mostrada em seriados de TV, que sequer existem, e ainda impõem curtos espaços de tempo para a investigação, exigindo que os detetives tenham tais habilidades impossíveis.

Da próxima vez que assistir ao novo episódio de CSI, olho vivo e faro fino e seja mais crítico, pois nem todo o trabalho da polícia norte-americana é esse primor tecnológico!