quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Você sabia que os barbeiros, por muitos séculos, foram os “médicos” do povo?!

Este post é uma espécie de homenagem pessoal a um dos livros que eu mais gosto, “O físico”, de Noah Gordon, que mistura com grande maestria romance de ficção com pano de fundo da realidade da medicina no período da Idade Média, antes do ano 1300. O livro mostra em vários capítulos como era a concepção da medicina no medievo, as proibições sociais da Igreja, a prática dos médicos, a formação dos acadêmicos e principalmente: os barbeiros, que na realidade eram os “médicos do povo”.


Por muitos séculos a Europa entrou em seu próprio mundo, tendo pouca comunicação com o “mundo lá fora”. Os feudos e reinos eram fechados em si mesmos, portanto era difícil interagir entre grupos de vilas. Às famílias mais nobres restavam duas carreiras, geralmente: ser soldado, ou ser membro do clero – caso não houvesse a sorte de ser membro de uma corte real parasitária.

Neste contexto, havia na Europa poucas profissões, mesmo que a necessidade fosse absurda. Uma delas era o ser médico. Na Europa medieval havia poucas universidades dedicadas a este estudo, sendo que, geralmente, as universidades – comandadas pela Igreja – se colocavam a ensinar filosofia, teologia, arquitetura e direito, pouco além disso. Nesse meio tempo, no Oriente Médio, já havia várias universidades que ensinavam, com grande maestria, a medicina como profissão importante.

Na Europa o atraso era enorme. Havia poucos médicos, que cobravam caríssimo pela consulta e que faziam remédios mirabolantes, mais parecidos com poções mágicas – ou sinal de puro curandeirismo. E como se vivia em um mundo teocentrista, acreditava-se que Deus curaria todos os males. Quem realmente queria ser médico dirigia-se para Bagdá, Damasco, Isfahan, onde se localizavam as melhores instituições para o estudo das doenças e dos males da humanidade, ainda que precariamente aos olhos dos avanços de hoje.


Os barbeiros como “médicos”...
Como era muito caro e difícil termos médicos profissionais e formados na Europa medieval, era comum que barbeiros fizessem o serviço de barbeiro e cabeleireiro e, ainda, dentista e médico. Extraíam dentes, faziam incisões, cirurgias, curativos, receitavam remédios que mais pareciam poções mágicas etc. Também é digno de nota dizer que estes barbeiros, para atingirem esse grau de execução do serviço, era preciso participar de uma “guilda” por pelo menos oito anos.

Guildas eram espécies de sindicatos que agrupavam setores profissionais. Assim, havia a guilda dos pedreiros, a guilda dos artesãos, a guilda dos atores etc. Um jovem aprendiz começava fazendo barbas e cortando cabelos; com o tempo, iam auxiliando como enfermeiros de hoje em dia os barbeiros ou médicos, aprendendo um pouco mais de cada doença e cada tratamento. De maneira brilhante Noah Gordon mostra isso no livro “O físico”.

Na entrada de cada barbearia havia um cilindro pintado em branco e vermelho. Isso significava que aquele barbeiro tinha aptidões medicinais, e poderia ser chamado durante qualquer hora do dia para uma emergência: um enfarte, um parto, um curativo, uma perna quebrada etc.

De acordo com o historiador medievalista Jacques Le Goff, o barbeiro era mais popular que o médico por questões mais do que financeiras; se formos passar os valores de um pão em Londres em 1350 para os dias de hoje, ele custaria absurdos 9 reais. O mesmo ocorria com uma consulta: com o médico, atuais 315 reais, e com um barbeiro, somente 38 reais. Para uma população malnutrida, sem instrução e com poucos bens, presa à terra do senhorio, ir ao médico era um luxo tremendo.


O estudo da medicina no medievo...
Agora surge a pergunta: então como se formavam os médicos durante esse período da história? Bem, primeiramente cabe dizer que somente membros da nobreza ou da aristocracia formavam-se médicos, pois as melhores escolas estavam em territórios muito distantes, principalmente no Oriente Médio. As melhores universidades ficavam sob o comando islâmico em Damasco, Constantinopla, Alexandria, Bagdá, Fez, Isfahan e Beirute; ao contrário dos europeus que deram preferência a se fecharem em feudos teocêntricos, naquela época os árabes continuaram com os seus estudos sobre as doenças, iniciados pelos gregos e pelos romanos séculos antes em suas academias.

Mesmo com essa diferença entre os mundos Ocidental e Oriental, havia gravíssimos entraves. As pessoas estudavam medicina, mas as disciplinas anatômicas eram feitas em porcos – por terem estrutura orgânica parecida com a de seres humanos. Isto porque o Cristianismo e o Islamismo proibiam que corpos humanos, considerados “templos de Deus” fossem “profanados” em estudos. E muitas doenças eram vistas, ainda, como estranhas manifestações demoníacas, como a epilepsia.

Diz a lenda que Leonardo da Vinci, para fazer seus desenhos anatômicos , teve que recorrer a vários corpos de mendigos mortos nos arredores de onde vivia, chegando a ser preso por isso duas vezes. A “profanação de corpos” era um crime passível de multa ou prisão mesmo no auge da Itália renascentista, considerado período que o homem fez do mundo um antropocentrismo. Foi somente nos idos do século 18 que as universidades europeias começaram a se interessar pelos problemas do corpo humano, a abrir cursos de medicina e a utilizar seres humanos nos estudos anatômicos.


Por muitos e muitos séculos os barbeiros foram os verdadeiros médicos e dentistas das populações, formada por 99% de pobres miseráveis. Na prática do empirismo que adquiriram conhecimento, no erro e no acerto que mataram e curaram pessoas com “fórmulas mágicas do tempo da vovó”. Mas foram eles que, de feira em feira, parando de vila em vila, que levaram esperança e um pouco de higiene nos tempos em que tomar banho e escovar os dentes eram atividades consideradas prejudiciais ao corpo.