sábado, 16 de novembro de 2013

Considerações acerca do canibalismo e da antropofagia...

O canibalismo é um dos maiores tabus da sociedade humana desde os tempos mais remotos; entretanto, entre os animais ele pode ser extremamente comum dependendo da espécie. Entre os seres humanos, o canibalismo é conhecido como “antropofagia”, e pode ocorrer de duas maneiras: (1) para matar a fome através de alimento e (2) como meio de ritual para adquirir a força e os possíveis poderes do morto. No post de hoje vamos falar alguns pontos destes tabus, o canibalismo e a antropofagia, que não são entidades sociais do passado!


1. Canibalismo é um tipo de relação ecológica em que certas espécies de animais se alimentam de indivíduos da mesma espécie, sendo natural em alguns casos estudados. De acordo com biólogos evolucionistas, essa prática terá resultado na própria evolução das espécies, com o objetivo de eliminar os indivíduos menos aptos, por exemplo, provenientes de uma ninhada em que alguns filhotes saem dos ovos defeituosos ou imaturos;

2. Alguns exemplos frequentes de canibalismo são o consumo dos machos de alguns insetos, a exemplo de integrantes da ordem mantodea e aracnídeos pelas fêmeas, depois da cópula. Alguns estudiosos acreditam que esta prática aumenta as probabilidades da fêmea ter uma prole forte, por ter ingerido as proteínas do macho. Além disso, são citados vários casos de espécies em que o macho desenvolveu estratégias para escapar ao suposto canibalismo da fêmea;

3. O termo “canibalismo” teve origem no idioma arawan, através do espanhol “caribal”, “aquele que vem do Caribe”. O arawan era uma língua falada por indígenas caribenhos que tinham o costume de antropofagia – comer carne de seres humanos. Então houve a associação deste povo com tal prática;

4. Durante muitos séculos, entre 1492 até pelo menos 1750, exploradores europeus que viajavam pelo interior da América do Sul, da África e da Austrália frequentemente relatavam e desenhavam rituais de antropofagia (o ato de canibalismo entre seres humanos). Geralmente o ato de alimentação ocorria quando homens comiam os corpos dos seus inimigos depois de batalhas;

5. De acordo com os antropólogos, os casos de seres humanos praticantes de canibalismo (antropofagia) podem ser classificados em três modelos: (1) transtorno mental extremamente grave, (2) rituais macabros de magia negra onde os praticantes remetem ao passado, tentando obter possíveis “poderes e forças” das pessoas mortas. Ambos os casos, em todos os países do mundo, são considerados crimes gravíssimos, e (3) casos extremos de sobrevivência, como os sobreviventes da queda de um avião no Chile em que os sobreviventes tiveram que comer carne dos mortos para suportarem o período de isolamento no alto das montanhas;

6. Entre aves, canideos e felinos, especialmente se criados em cativeiro, patologias maternas de natureza hormonal e inibição da percepção materna ou da produção de estímulos táteis e olfativos vindos dos filhotes podem levar a este comportamento. Muitos de nós já conhecemos casos, por exemplo, de cadelas que comeu a ninhada, por exemplo;


7. De acordo com alguns pesquisadores, o canibalismo pode ter origem genética. Estudos laboratoriais apontam que filhos de mães canibais tendem, também, a serem canibais. Portanto, pode ser um transtorno genético ou de estrutura mental passada de geração para geração;

8. Já a antropofagia é o ato de consumir uma parte, ou várias partes da totalidade de um ser humano. O sentido etimológico original da palavra “antropófago” vem do grego “anthrópos”, “homem”, e “phagein”, “comer”; foi sendo substituído pelo uso comum, que designa o caso particular de canibalismo na espécie humana. Pelo seu contexto, geralmente cerimonial, o canibalismo/antropofagia não pode ser aplicado ao hábito alimentar do ser humano;

9. É de extrema importância, portanto, explicar as diferenças entre canibalismo e antropofagia. O canibalismo é o hábito alimentar de algumas espécies de se alimentar de indivíduos da própria espécie, como algumas aranhas, grilos etc. Já a antropofagia seria o ato do ser humano consumir carne humana em rituais que variam, mas sem a intenção de alimentar-se;

10. Um dos grupos canibais mais famosos é o dos astecas, que sacrificavam seus prisioneiros de guerra e comiam alguns deles. Eles comiam os prisioneiros de guerra e outras vítimas, numa prática conhecida como exocanibalismo ou exofagia, ou seja, canibalismo praticado em indivíduos de tribos diferentes;

11. Os poucos casos de canibalismo de humanos registrados na história contemporânea estão ligados a situações extremas e limítrofes, como satisfação do instinto de sobrevivência do indivíduo perante uma opções entre morrer ou viver, além dos casos especiais envolvendo rituais de magia negra;

12. Em 1846, um grupo de 90 pessoas liderado por George Donner (foto abaixo) ficou preso em uma nevasca no alto de Sierra Nevada, na Califórnia. Os sobreviventes tiveram que comer a carne de seus companheiros mortos para permanecerem vivos;


13. Uma história semelhante ocorreu em 1972. O “Voo força aérea uruguaia 571”, que transportava 46 pessoas, entre eles a seleção de rúgbi uruguaia, despencou na Cordilheira dos Andes. Apenas 16 pessoas se salvaram. O estoque de alimentos a bordo acabou rapidamente e o único meio encontrado pelo grupo para sobreviver foi recorrer aos corpos dos colegas mortos;

14. Do modo de vista legal, o canibalismo de humanos, quando não se trata de uma situação limite, enquadra-se como crime de mutilação e profanação de cadáver e um grave desrespeito pela dignidade da pessoa humana. Segundo os valores da sociedade ocidental, é um ato repugnante e imoral;

15. A título de curiosidade, antropólogos da Universidade da Califórnia em Los Angeles entrevistaram, nos anos 1980, sobreviventes de acidentes que tiveram de comer carne humana para sua sobrevivência, além de membros de tribos que ainda praticam o canibalismo. O objetivo era conhecer o “gosto” e o processo de cozimento da carne humana. De acordo com os entrevistados, a carne humana “é muito difícil de cozinhar, demorando muito, tem aspecto bastante denso, é dura, difícil de mastigar e levemente adocicada em seu sabor”;

16. Líderes tribais das ilhas Fiji comiam a carne de pessoas consideradas especiais em sua comunidade. Para isso, utilizavam talheres próprios, que não podiam ser usados para consumir qualquer outro tipo de alimento. Os habitantes da Ilha de Páscoa gostavam bastante de carne humana. Os banquetes eram promovidos em lugares isolados e apenas os homens podiam participar;

17. Em 1912, no Haiti, um grupo de haitianos matou e comeu uma garota de 12 anos em uma cerimônia vudu. No meio do caminho entre o ritual e a sobrevivência está o caso da tribo Fore, da Papua-Nova Guiné. Para compensar as carências de proteínas, passaram a realizar um ritual onde os homens ficavam com os músculos, enquanto as mulheres e crianças, com o cérebro de outros membros da tribo que tinha falecido;

18. A antropofagia praticada pelos grupos tribais do Brasil revestia-se de caráter exclusivamente ritual. As notícias fornecidas pelos cronistas do século 16 dão conta de sua importância na organização social indígena, como fator indispensável aos ritos de nominação e iniciação;


19. Com a vinda dos missionários jesuítas, os costumes canibais na América do Sul foram fortemente combatidos, por serem incompatíveis com os valores e padrões da sociedade europeia. O costume de comer carne humana foi proscrito e reprimido pela força, com grave dano para um tipo de organização social em que a antropofagia desempenhava relevante função como processo de aquisição de prestígio e ascensão social;

20. Numa perspectiva psicanalítica tal prática está associada aos bizarros comportamentos da psicose e perversão sádico-psicopática. Freud referiu-se algumas vezes a essa manifestação patogência inclusive co-denominando a “fase oral” por “fase canibalesca” enquanto um conjuntos de pulsões. Em sua avaliação do processo civilizatório situa o canibalismo como um comportamento possivelmente controlado ao lado dos desejos instintuais do incesto e da ânsia de matar, os desejos inconscientes que ameaçam o indivíduo e a civilização e que todos parecem unânimes em repudiar;

21. O alemão Fritz Haarmann, conhecido como o “Vampiro de Hanôver”, foi condenado em 1924 pelo assassinato de 30 garotos. Ele fazia salsicha da carne dos meninos, não somente para consumo próprio, como também para venda;

22. No passado, alguns casos famosos de canibalismo foram também associados a um contexto sexual. Por exemplo, nos Estados Unidos, durante a década de 1920, Albert Fish estuprou, matou e devorou várias crianças, alegando ter tido um grande prazer sexual resultante de seus atos;

23. O russo Andrei Chikatilo, que matou pelo menos 53 pessoas entre 1978 e 1990, também era praticante do canibalismo com conotações sexuais. O estadunidense Jeffrey Dahmer, conhecido também como o “Canibal de Milwaukee” assassinou e devorou suas vítimas entre 1978 e 1991 (sendo a maioria dos assassinatos ocorridos entre os anos de 1989 e 1991). Suas vítimas eram homens que haviam tido relações sexuais com Dahmer. Foi preso em 22 de julho de 1991 e condenado à prisão perpétua em 1992. Em 28 de novembro de 1994, Dahmer e outro preso foram atacados de surpresa e espancados até à morte por Christopher Scarver, outro preso, diagnosticado como psicótico. Dahmer morreu a caminho do hospital, devido a vários traumas na cabeça;

24. Em 2002, a polícia alemã encontrou na casa de Armin Meiwes (foto abaixo), técnico de informática residente em Rotenburgo, pedaços de um corpo humano no frigorífico. Tratava-se de Bernd-Jürgen Brandes, de 43 anos, que o procurara em resposta a um anúncio colocado por Meiwes na internet procurando por “jovens corpulentos entre 18 e 30 anos para abate”. Além de matá-lo, Meiwes cortou seu pênis e comeu-o flambado. Meiwes contou à polícia que Brandes concordou que partes de seu corpo fossem cortadas e cozidas. Depois de terem comido juntos, Brandes teria concordado em ser morto;

25. Talvez o ícone contemporâneo mais forte acerca do canibalismo seja o personagem principal dos filmes “Hannibal”, “Dragão Vermelho” e “O silêncio dos inocentes”. Este personagem se chama Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins (seu maior fetiche com carne humana era fígado com vinho);

26. A indústria de cinema da Itália lucrou muito entre o final das décadas de 1970 e meados da década de 1980 com filmes do tipo snuff (que supostamente mostrariam mortes reais) ao lançarem a série “Holocausto canibal”, que mostraria o exotismo de tribos africanas frente ao canibalismo, quando consumiam carne de brancos europeus. Tais filmes tiveram muito sucesso no meio underground.