terça-feira, 6 de agosto de 2013

Relíquias “santas”: um verdadeiro, lucrativo e polêmico comércio medieval...

Uma relíquia é um objeto preservado para efeitos de veneração no âmbito de uma religião ou culto, sendo normalmente uma peça associada à história da referida religião, culto ou seita. Podem ser objetos pessoais ou partes do corpo de um santo ou personagem sagrado. O culto das relíquias atingiu o seu máximo na religião budista e em várias denominações cristãs, como o catolicismo. As relíquias são usualmente guardadas em receptáculos próprios chamados “relicários”. Na grande generalidade das religiões protestantes, a veneração de relíquias é desaprovada.


O primeiro exemplo do culto de uma relíquia por cristãos surge no ano de 156, em Esmirna, na Turquia, a propósito do martírio de São Policarpo. Depois de ter sido queimado na fogueira, os discípulos do mártir recuperaram os ossos calcinados do seu mestre e acolheram-nos como objetos sagrados. Mais tarde diversos milagres foram atribuídos a esta relíquia e a busca por objetos semelhantes tornou-se cada vez mais popular, conduzindo, por exemplo, à suposta “descoberta” da cruz da crucificação de Jesus Cristo em 318.

No início do cristianismo, as relíquias eram importantes, principalmente partes de corpos de mártires, pois se considerava que seriam estes os primeiros a levantar-se no momento da ressurreição. Era, pois, importante para o fiel ser enterrado junto destas relíquias, ou pelo menos perto dos seus relicários, de forma a poder acordar para a vida eterna ao lado dos “soldados da fé”. O culto das relíquias foi aumentando cada vez mais e no século 7 o arcebispo da Cantuária, São Teodoro, declarou que as relíquias deviam ser objetos de veneração e iluminadas dia e noite pela luz de uma vela. Dois séculos mais tarde a práctica era obedecida pelo menos pelo Rei Alfredo da Inglaterra.



As relíquias na Idade Média: polêmicas e mais polêmicas...
Durante a Idade Média e o período de construção de grandes catedrais europeias, o culto das relíquias atingiu o seu auge. Nesta altura, a edificação e manutenção de uma catedral era custeada sobretudo através de donativos da congregação. A importância eclesiástica de uma diocese, bem como a sua capacidade de atrair novos fiéis e peregrinos, era muitas vezes dependente da quantidade e qualidade de relíquias que eram exibidas para veneração.

Foi durante o período da construção da Catedral de São Pedro, no Vaticano, quando a Igreja começou a vender indulgências, também percebemos a enorme polêmica da venda de relíquias santas. De acordo com historiadores do período medievo há um escândalo:

• A quantidade de pedaços de madeira sendo vendidos como “lascas da cruz de Cristo” seria possível construir um navio de 22 pés de comprimento;
• Havia em igrejas e capelas mais de 17 fêmures de jumentinhos que teriam ajudado Jesus, Maria e José na épica fuga para o Egito;
• Foram estudados nos arquivos historiográficos mais de oito crânios de São João Batista somente nos arredores da Alemanha;
• Nas regiões correspondentes à Itália e à Suíça havia cerca de onze pernas de Santo André e nove braços de Santo Estêvão.

Quando a primeira seção da Catedral de Colônia, na Alemanha, abriu as portas em 1164, foi com todo o orgulho que o Arcebispo Reinaldo de Dassel expôs os supostos corpos dos Três Reis magos. Da mesma forma, e dando só alguns exemplos: Santiago de Compostela, na Espanha, reclama o corpo de Santiago Maior; Trier diz ter o manto de Jesus pelo qual os legionários romanos jogaram aos dados; a Catedral de Chartres apresentaria a túnica da Virgem Maria.


De acordo com os historiadores especializados em Teologia e Idade Média, quanto mais relíquias uma igreja tinha e quanto mais importantes, mais rica e próspera ela seria, na vinda de viajantes e no recolhimento de coletas – principalmente quando o catolicismo sugou as vilas europeias na busca de dinheiro para a construção do Vaticano. Por conta disso, e muito mais, que Matinho Lutero iniciou seu movimento de Reforma Protestante e, por isso, até hoje, alguns ramos de protestantismo acreditam que as relíquias religiosas sejam prejudiciais para uma verdadeira fé.

Não é difícil perceber que em pouco tempo o culto das relíquias tomou uma proporção exagerada, principalmente após a tomada de Constantinopla durante a Quarta Cruzada, em 1204. Ossos, pequenos bocados de pano, garrafinhas com água do rio em que Jesus foi batizado, até saquinhos com o pó do qual Adão foi criado, eram peças comuns nos mercados do século 13. Em dada altura chegaram a contabilizar-se cerca de 700 “verdadeiros” pregos da cruz, o que só por si era um fato capaz de abalar o mais crente. Mais tarde Erasmo de Roterdã haveria de afirmar com ironia que os verdadeiros bocados da cruz chegavam para construir um navio. Só em Portugal, atualmente, há cinco igrejas que exibem supostos pedaços da cruz de Jesus. Recentemente, a Igreja Católica encomendou um estudo que descobriu que existem 4 milhões de centímetros cúbicos em relíquias da cruz, bastante aquem dos 178 milhões necessários para o volume de uma cruz razoável. Não há, portanto, que temer.

O papado tomou uma posição no fim do século 13, no Concílio de Lion, onde chamou a si a responsabilidade de diagnosticar a veracidade de todas as novas relíquias. Aparentemente, não foi suficiente, uma vez que em 1287 o Bispo Quivil de Exeter se viu obrigado a proibir de todo a veneração de todas as relíquias aparecidas nos últimos anos.


Com a evolução da ciência, muitas das relíquias já foram ou estão em risco de ser desmistificadas. Sobre o Santo Sudário de Turim, por exemplo, alegou-se ser uma impostura obra de um talentoso falsificador do século 14 (idade do pano obtida pelo método do carbono 14). Contudo, cientistas envolvidos na pesquisa levantaram a hipótese de que a composição do sudário pudesse ter sido alterada por uma série de incêndios aos quais a relíquia sobreviveu, além do próprio depósito de impurezas, tais como poeira e crescimento de bactéricas. Tais questões invalidam a datação por carbono 14 e a referida falsificação. Verdadeiras ou não, as relíquias continuam a fazer parte da tradição cristã, apesar do progressivo distanciamento da Igreja Católica em relação à importância teológica da sua veneração, justamente graças aos avanços das ciências.

Classificação das relíquias...
O catolicismo definiu uma classificação para as relíquias, que segue abaixo:

1. Primeira Classe: partes do corpo de um santo ou de uma santa – como ossos, unhas, cabelo etc.
2. Segunda Classe: objetos pessoais de um santo ou de uma santa – como roupas, cajado, terços, rosários etc.
3. Terceira Classe: pedaços de tecido que tocaram o corpo do santo ou da santa – como lençóis, travesseiro, móveis de uso pessoal etc.

É interessante pontuar que algumas relíquias popularmente famosas ainda não são reconhecidas pela Igreja, como o famoso Sudário de Turim, que teria envolto o corpo de Cristo logo após Ele ter sido descido da cruz. Entretanto, há na Europa uma quantidade enorme de relíquias que vêm dos tempos medievais, quando ainda havia o comércio enorme destas peças. Entretanto, é digno de nota, que atualmente é proibido, sob pena de excomunhão, vender, trocar ou exibir para fins lucrativos relíquias de primeira e segunda classe – as de terceira classe não importam tanto para a Igreja, pois podem ser fonte de embustes.


A busca de relíquias...
Alguns historiadores apontam algumas das relíquias (não somente religiosas) mais procuradas por alguns pesquisadores, que gastam verdadeiras fortunas anualmente na busca destas. São algumas: a coroa de espinhos usada por Jesus no Calvário, a lança que o perfurou no flanco quando pregrado à cruz, a Arca da Aliança onde estariam os Dez Mandamentos, os restos da Arca de Noé, o manto de Jesus, o Santo Graal, a Pedra Filosofal, esqueletos de unicórnios etc.

Relíquia no Budismo...
No credo budista a maior relíquia são as cinzas de Siddartha Gautama, o Buda. Depois de sua morte, ele foi cremado e suas cinzas foram dividas entre seus crentes missionários para efeito de adoração e hoje em dia são expostas em relicários espalhados por quase toda Ásia.

De um modo geral não podemos cometer o anacronismo de analisarmos o comércio de relíquias medievais com os olhos de hoje em dia, tempo em que a ciência tem um avanço inimaginável e o ceticismo reina mesmo na Igreja, que atualmente não declara qualquer objeto como uma relíquia. O interessante é atentar como houve um comércio gigantesco disso, a ponto de termos tantas “lascas da cruz” em capelas e catedrais que seria possível construir um navio com elas. Ou então a quantidade absurda de ossos de santos, santas e mártires, uma vez que a ideia principal estava baseada na premissa de que quanto maior número de relíquias de primeira classe, mais fiéis e peregrinos aquela igreja teria.