quinta-feira, 11 de julho de 2013

Mitos da inauguração do cinema: fatos e farsas da fascinante sétima arte...

Você sabe por que o cinema é considerado a “sétima arte”? Você sabia que existem vários mitos sobre a primeira exibição de um filme, em 1895, em Paris? Dizem por aí que as pessoas saíram correndo quando viram o filme do trem chegando à estação, pensando que fossem atropeladas; na realidade, já de cara, posso dizer que se trata de um mito eternizado. No post de hoje falaremos disso: a inauguração do cinema e os primeiros filmes produzidos à época. Vamos embarcar numa viagem ao tempo!


O contexto do cinema em sua época de inauguração...
Em meados do século 19, tudo o que possuía a imagem era uma legitimidade contestada; apenas sua alta aristocracia – a pintura, os museus, as coleções – podia adentrar as portas do mundo da cultura ou do poder. Nesse mesmo tempo, a industrialização começava a construir uma enorme sociedade de consumo nos países desenvolvidos, junto com descobertas científicas. No final do século 19 já havia a comunicação de massa produzida pelos jornais impressos com seus folhetins nos rodapés que atraíam milhões de leitores em todo planeta, principalmente na Inglaterra e na França.

Quando em 1895 o cinematógrafo foi apresentado ao mundo, ninguém poderia supor quantas revoluções ele guardava potencialmente. O impacto provocado por imagens que reproduziam a realidade foi impressionante. Mas, no primeiro momento, as pessoas não sabiam para que serviria o cinema; ele era mais uma invenção maluca da época, mais uma novidade tecnológica do que um meio de comunicação.


A inauguração do cinema, um dia para a história...
A primeira sessão de cinema realizou-se em 28 de dezembro de 1895, na cidade de Paris. Este acontecimento não foi apoteótico, como se poderia idealizar num primeiro momento. Não foi um dia para entrar na história assim, de imediato. De fato, a cerimônia foi simples: a tela, algumas cadeiras, o projetor e, na entrada do Salão Indiano, uma faixa notificou, aos interessados pelas curiosidades e pelas invenções, que naquele local se daria a exibição de um inusitado espetáculo: “Cinematógrafo Lumière, entrada um franco” – hoje equivalente a uns oito reais. Apenas 33 testemunhas compareceram à sessão preparada cuidadosamente pelos irmãos Auguste e Louis Lumière (foto abaixo).


O cinema surgiu no final do século 19 como decorrência do progresso científico. Em 28 de dezembro de 1895, aconteceu a primeira projeção pública do cinematógrafo Lumière, no salão indiano do Grand Café, no bulevar Capucines em Paris. O sucesso foi estonteante depois de alguns dias de insistência naquela exibição. Os jornais não se cansavam de exaltar a “maravilha do século”, que paulatinamente era aperfeiçoada e deixava de ser exclusividade dos irmãos Lumière.

Houve a historinha de que, numa das primeiras sessões, em que era exibido o pequeno vídeo de um minuto e três segundos de um trem chegando à estação, as pessoas saíram correndo com medo de “serem atropeladas” pela imagem. Pura historieta eternizada. As pessoas estavam mais fascinadas pelo cientificismo da coisa, da reprodução das imagens que já eram do passado em suas lembranças; era um mecanismo de “relembrança” como a fotografia e com total fidelidade, o espaço para o real verdadeiro.

O cinematógrafo foi o resultado de uma série de experiências anteriores, como as sombras chinesas, passando pela lanterna mágica do século 17 ou, pelos aparelhos da física prática e recreativa. Essas iniciativas tinham um mesmo objetivo: captar a realidade em movimento. O aparelho dos irmãos Lumière, entretanto, nada mais era do que uma invenção mecânica, permitindo a obtenção de fotografias animadas.

No início do século 20, o filme não era visto como objeto cultural. Afirmava-se que algo produzido por uma máquina não poderia ser uma obra de arte. O “homem da câmera” era considerado um simples caçador de imagens, portanto não pertencia ao mundo dos letrados. Havia, da parte das classes dirigentes, um certo desdém, quando não desprezo por esses “caçadores de imagens”.

Abaixo temos um exemplo de um dos primeiros filmes, que raramente passavam dos dois minutos de duração. Trata-se da obra cômica “O regador regado”, de 1895, dos irmãos Lumière. Confira a curiosidade, um microfilme mudo, mas que atraía a curiosidade das pessoas, que ainda não entendiam o potencial do cinema quando ele foi inaugurado em Paris...



Os primeiros registros dos quais se tem notícia sobre o reconhecimento do filme como documento histórico não partiram dos historiadores. Em 1898, no texto “Une nouvelle source de l’historie: création d’um dépôt de cinematographie historique”, o câmera polonês Boleslas Matuszewski, que trabalhou com os irmãos Lumière, não só reconheceu a importância do filme enquanto documento histórico como destacou sua relevância no ensino. Matuszewski defendia o valor da imagem cinematográfica como testemunho ocular, verídico e infalível, capaz de controlar a tradição oral. Para ele, embora o cinematógrafo não pudesse registrar a história integral, ao menos fornecia algo incontestável e verdadeiro.

Na verdade o cinema construiu uma capacidade ampliada de representar o real. Nenhuma outra forma estética conseguiu alcançar a capacidade de se apropriar do real como o cinema. Em certos aspectos, como forma de expressão, artística ou documental, ele é insuperável. Cem anos de cinema capturaram, e vêm capturando, a vida nas suas mais variadas facetas objetivas e subjetivas nos dando, através de seus discursos e representações, a ilusão de vivermos o real concreto, histórico. Além desse aspecto, em termos quantitativos, o século 20 produziu um volume extraordinário de filmes que, simplesmente, encerra um verdadeiro e enorme arquivo, de pesquisa sobre a subjetividade do mundo contemporâneo. Aí as questões culturais, éticas, psicológicas, sociais, históricas se apresentam das mais variadas formas. Além das questões objetivas que o cinema vive e revive, é preciso que nos interessemos pelas questões subjetivas dessa “sobrevivência” e que ilustram o que chamamos de crise da “civilização ocidental”.


E o cinema como “sétima arte”?
Só no início do século 20 que a crítica entendeu que o cinema poderia servir para alguma coisa: justamente “captar a verdadeira realidade da forma como ela é”. Assim, começaram as primeiras imagens curiosas dos arredores do mundo para serem exibidas na Europa: tribos africanas, animais selvagens das Américas, rituais religiosos asiáticos etc.

Foi neste contexto que o escritor italiano de cultura francesa, Ricciotto Canudo, foi quem primeiro compreendeu, por volta de 1911, o enorme potencial do cinema. Para Canudo, o cinema vinha somar-se às artes tradicionais: arquitetura, música, pintura, escultura, poesia e dança. Foi ele quem usou pela primeira vez a expressão “sétima arte”.