sábado, 20 de julho de 2013

Cavalo de Troia: estratégia de guerra que teria sido um fato ou uma farsa muito bem bolada?

O Cavalo de Troia foi um grande cavalo de madeira usado pelos gregos durante a Guerra de Troia, como um estratagema decisivo para a conquista da cidade fortificada de Troia, cujas ruínas estão em terras turcas. Tomado pelos troianos como um símbolo de sua vitória, foi carregado para dentro das muralhas, sem saberem que em seu interior se ocultava o inimigo. À noite, guerreiros saíram do cavalo, dominando as sentinelas e possibilitando a entrada do exército grego, levando a cidade à ruína. A história da guerra foi contada primeiro na “Ilíada” de Homero, mas ali o cavalo não é mencionado, só aparecendo brevemente na sua “Odisseia”, que narra a acidentada viagem de Odisseu de volta para casa. Outros escritores depois dele ampliaram e detalharam o episódio.


O cavalo é considerado, em geral, uma criação lendária, mas não é impossível que tenha realmente existido. Pode, mais provavelmente, ter sido uma máquina de guerra verdadeira transfigurada pela fantasia dos cronistas da época. Seja como for, revelou-se um fértil motivo literário e artístico, e desde a Antiguidade foi citado ou reproduzido vezes incontáveis em poemas, romances, pinturas, esculturas, monumentos, filmes e de outras maneiras, incluindo caricaturas e brinquedos. Várias reconstruções conjeturais do cavalo foram feitas em tempos recentes. Tornou-se também origem de duas conhecidas expressões idiomáticas: “cavalo de Troia”, significando um engodo destrutivo, e neste sentido denomina atualmente uma espécie de vírus de computador, e “presente de grego”, algo recebido aparentemente agradável, mas que acarreta consequências funestas.

Fontes literárias sobre o estratagema de guerra...
O Cavalo de Troia foi mencionado pela primeira vez na “Odisseia” de Homero, em breves referências. De acordo com a narrativa, os troianos carregaram o cavalo para dentro de sua fortaleza, onde permaneceu enquanto decidiam o que fazer com ele. Uns queriam destruí-lo; outros queriam levá-lo até o alto da cidadela e precipitá-lo do penhasco, enquanto outros preferiam conservá-lo como uma oferenda aos deuses. Decidindo por esta última alternativa, selaram seu destino.

Outros poetas arcaicos também falaram do cavalo, como Arctino, em sua “A destruição de Troia”, e Lesques, na “Pequena Ilíada”, mas suas obras originais se perderam, sobrevivendo somente no sumário “Epicorum Graecorum Fragmenta”, de um certo Proclo.


Uma referência adicional se encontra na tragédia “As troianas”, de Eurípides, quando Posidon diz: “De sua casa sob o Parnaso, Epeu, o fócio, ajudado pelas artes de Atena, criou um cavalo para abrigar em seu ventre uma hoste armada, e o enviou para dentro das muralhas, carregado de morte; um dia os homens falarão do cavalo de madeira, com sua carga oculta de guerreiros”.

Um relato mais detalhado, porém, se encontra no livro dois da “Eneida”, de Virgílio. Num banquete Eneias relata a Dido os sucessos da guerra. Depois da falsa retirada dos gregos, vendo a praia deserta, os troianos abrem os portões da cidade e se deparam com o imenso cavalo. Timetes tem a ideia de levá-lo para dentro dos muros, mas Cápis e outros receiam alguma armadilha, e imaginam mais avisado queimá-lo, ou averiguar o que trazia em suas entranhas.

A história foi repetida com variações por escritores tardios, como Quinto de Esmirna, Higino e João Tzetzes. Quinto disse que no cavalo penetraram trinta homens. Apolodoro também deu outros detalhes: atribuiu a Ulisses a ideia de construir o cavalo, e a Apolo o envio das serpentes; disse que o cavalo portava a inscrição “Para seu regresso à pátria, os gregos dedicam este cavalo a Atena”, e mudou um pouco a cronologia dos eventos.


Trifiodoro, em “A tomada de Ílios”, deixou a mais longa e elaborada versão conhecida, demorando-se em detalhes sobre a construção e o aspecto do cavalo, que, segundo narra, era uma obra de arte impressionante, dotada de beleza e graça, suscitando a admiração dos troianos. Tinha os arreios adornados de púrpura, ouro e marfim, seus olhos eram rodeados de pedras preciosas, e sua boca, com alvos dentes, se abria conduzindo a um canal para ventilação interna, para que os guerreiros ocultos não fossem asfixiados. O corpo era poderoso, e curvo como um navio; atrás, sua cauda volumosa descia ao chão em tranças e faixas. Os cascos de bronze, munidos de rodas, sustentavam pernas que davam a impressão de se mover.

Possíveis interpretações da alegoria...
Embora seja bastante possível que a Guerra de Troia tenha ocorrido, o famoso cavalo, na forma como ele foi descrito pelos antigos, provavelmente é uma lenda, mas pode ter sido algum aparato real transformado fantasiosamente pela tradição, segundo os antropólogos. Na Antiguidade, o “cavalo” era uma derivação de uma máquina de guerra, o aríete, muitas vezes construído na forma de um animal. Os assírios costumavam usar máquinas deste tipo, e é possível que o exemplo tenha sido tomado pelos gregos. Também foi interpretado como uma metáfora de um terremoto, uma das causas possíveis apontadas para a destruição da Troia histórica, considerando que Posidon/Netuno era o deus dos cavalos, do oceano e dos terremotos.


Outra sugestão é que o cavalo, na verdade, era um barco, e foi assinalado que os termos usados para colocar os homens no seu interior eram os mesmos que descreviam o embarque da tripulação de navios. Na tradição clássica os navios são às vezes chamados “cavalos do mar”. Na “Odisseia”, Penélope, lamentando a ausência de Telêmaco, diz: “Por que meu filho me deixou? O que tinha ele de fazer para viajar em navios que jornadeiam longamente sobre o mar, como cavalos marinhos?”. Na comédia “Rudens”, Plauto diz: “Você é carregado pelas estradas cerúleas (o mar) sobre um cavalo de madeira (navio)”.

Iconografia do Cavalo de Troia e cultura popular...
Uma das mais antigas representações do Cavalo de Troia é encontrada no chamado Vaso de Mykonos, datado do século VIII a.C. Outros achados mais ou menos da mesma época, como uma fíbula em bronze da Beócia, e cerâmicas procedentes de Atenas e Tenos, todos fragmentários, são similares no desenho, e podem se referir a protótipos bem mais antigos, como os aparatos de guerra assírios, com um desenho zoomórfico e quadrúpede, rodas e janelas. Guerreiros armados se colocavam no centro da máquina e usavam sua cabeça elevada para escalar muralhas, enquanto outros manipulavam um aríete na parte inferior. Em Atenas existiu uma gigantesca estátua em bronze do famoso cavalo, obra de Strongylion, instalada no santuário de Ártemis Braurônia da Acrópole, que mostrava vários guerreiros em seu interior, da qual ainda sobrevive o pedestal.

Ao longo dos séculos seguintes o Cavalo de Troia continuou fornecendo inspiração para muitos artistas visuais e literatos, constituindo um dos temas mais trabalhados da tradição épica, penetrando inclusive em regiões asiáticas como a Arábia e o norte do subcontinente indiano, que estiveram sujeitas à influência clássica. No século 17, o inglês John Bushnell tentou provar a possibilidade do cavalo realizando uma reconstrução hipotética, que seria tão grande que seis homens sentados em volta de uma mesa caberiam dentro da sua cabeça, mas ela acabou sendo destruída por uma tempestade antes de terminada. Outra foi criada em 1707 para uma suntuosa apresentação de uma peça, com cerca de cinco metros de altura, toda dourada, de onde saíram quarenta guerreiros armados.


A expressão “cavalo de Troia” se tornou largamente usada na cultura popular, sempre com o sentido de um artifício astuto, enganoso e perigoso, que possibilita a penetração dissimulada em território inimigo, e é a origem da expressão “presente grego”, quando recebemos algo de aparência agradável mas que produz más consequências. Denomina uma técnica de negociação baseada na mentira, uma estratégia militar deceptiva usada em inúmeras variantes por exércitos desde a Antiguidade, e um tipo de vírus de computador que se disfarça como um programa legítimo para ganhar acesso às máquinas dos usuários e iniciar a destruição dos programas instalados, roubar senhas e operar danos de outras naturezas (os famosos “Trojans”, que em português significa “troianos”).