quinta-feira, 6 de junho de 2013

Lendas em torno do papado de Roma: um assunto interessante...

As lendas em torno do papado, também conhecidas como teorias de conspiração do Vaticano, referem-se aos numerosos mitos, folclores, teorias da conspiração e lendas históricas envolvendo o papado, a Igreja e o Vaticano, tais como: as alegações por parte de algumas seitas que o papa seria o Anticristo, que uma mulher certa vez foi eleita papa, ou que São Malaquias profetizou sobre o pontificado de cada papa do século XII até o Juízo Final. A maioria das teorias alega que a Igreja e seus representantes estão secretamente controlando a sociedade secular.


Vicarius filii Dei, ou o Vigário do filho de Deus...
A teoria de conspiração do termo “Vicarius filii Dei” (“Vigário do filho de Deus”), considerado supostamente uma expansão do título histórico “Vicarius Christi”, é uma expressão utilizada na “Doação de Constantino” para se referir a São Pedro. A partir do século XIX, devido a interpretação de Uriah Smith, algumas seitas fundamentalistas adventistas do sétimo dia argumentam que a frase é identificada com o “número da besta” (666), e seria usada na tiara papal, denominando que o papa seria o Anticristo. Porém devido a ausência de imagens ou qualquer fonte do uso “Vicarius filii Dei” na tiara ou em mitras, bem como a expressão nunca ter sido utilizada como um título oficial, a reivindicação foi abandonada por diversos adventistas do sétimo dia.

Um papa mulher: a suposta Papisa Joana...
A alegação de que uma mulher, muitas vezes chamada de Papisa Joana, tornou-se papa apareceu pela primeira vez em 1250. Ela logo se espalhou por toda a Europa através das pregações de frades. A história cresceu em embelezamento, mas centrado em um conjunto de reivindicações. O prazo para essa reivindicação é tradicionalmente dada como entre 855-858, entre os pontificados de Leão IV e Bento III, no entanto, essa possibilidade é improvável, pois Leão IV morreu em 17 de julho de 855, e Bento III foi eleito como seu sucessor em 29 de setembro do mesmo ano. Jean de Mailly, um dominicano francês em Metz, coloca a história no ano 1099, em sua “Chronica universalis Mettensis”, que data de cerca de 1250 e dá o que é quase certamente a conta mais antiga fé de uma mulher que ficou conhecida como a Papisa Joana. Seu compatriota Stephen de Bourbon reconhece isso colocando seu pontificado em cerca de 1100. Além disso, os autores Rosemary e Darrell Pardoe afirmam que a primeira documentação completa sobre a lenda supõe que a data mais plausível de seu pontificado seria entre 1086-1108, quando houve um grande número de antipapas, e o reinado dos papas legítimos Vitor III, Urbano II e Pascoal II nem sempre foi com sede em Roma, uma vez que esta cidade foi ocupada pelo imperador Henrique IV, e mais tarde saqueada pelos normandos. Geralmente, existem duas versões da lenda: na primeira, uma mulher inglesa, chamada Joana, foi para Atenas com o amante, e estudou lá; na segunda, uma mulher alemã chamada Giliberta nasceu em Mainz. “Joana” se disfarça como um monge, chamado Joannes Anglicus, na época, ela subiu ao mais alto cargo da igreja, tornando-se papa. Depois de dois ou cinco anos de reinado, Papisa Joana ficou grávida e, durante uma procissão de Páscoa, deu à luz a criança na rua, quando caiu do cavalo. Ela foi publicamente apedrejada até a morte pela multidão furiosa, e, segundo a lenda, estes fatos foram removidos dos arquivos do Vaticano. Como consequência, certas tradições afirmavam que os papas ao longo do período medieval eram obrigados a passar por um procedimento em que se sentaram em uma cadeira especial, com um buraco no assento. Um cardeal teria a tarefa de colocar a mão no buraco para verificar se o papa tivesse testículos, ou fazer um exame visual. Este procedimento não é levado a sério pela maioria dos historiadores, e não há fontes documentadas. É provavelmente uma lenda grosseira com base na existência de duas cadeiras de pedra antigas com buracos nos lugares que, provavelmente, datadas da época romana e podem ter sido usadas por causa de suas antigas origens imperiais. Suas finalidades originais são obscuras – talvez como privadas sanitárias. Em um estudo do século 17, o historiador protestante David Blondel argumentou que Papisa Joana é uma história fictícia. A história pode muito bem ser uma sátira, que veio a ser acreditada como realidade. Esta opinião é geralmente aceita entre os historiadores.


A estranha profecia dos papas...
As “Profecia dos Papas”, atribuídas a São Malaquias (foto abaixo), são uma lista de 112 frases curtas em latim, que supostamente descrevem cada um dos papas (juntamente com alguns Antipapas), começando com o Papa Celestino II (eleito em 1143) e finalizando com um papa descrito no profecia como “Pedro Romano”, após seu pontificado, não se sabe o que aconteceria, alguns sustentam que se seguiria o Juízo Final, e outros, somente a destruição da cidade de Roma. Segundo a lenda, as profecias foram feitas por São Malaquias. Malaquias, em 1139, teria sido chamado a Roma pelo Papa Inocêncio II e lá ele supostamente teve uma visão dos futuros papas, que ele escreveu como uma sequência de frases enigmáticas. Este manuscrito foi então depositado no Arquivo Romano, e depois esquecido, até sua redescoberta em 1590, quando foi publicado pela primeira vez por Arnold de Wyon, um historiador beneditino, como parte de seu livro “Lignum Vitæ”. No entanto, as primeiras biografias de Malaquias não fazem nenhuma menção às tais profecias, nem é mencionado em nenhum registro antes da sua publicação em 1595, o que indica ser uma falsificação do século 15.


Papas sexualmente ativos...
Houve durante a história vários papas que confirmadamente tiveram uma vida sexual bastante ativa. Alguns, quando chegaram ao papado, já tinham vários filhos e algumas amantes; outros papas tiveram filhos durante o papado (foi quando chegaram a dizer, no século 16, que Roma mais parecia um prostíbulo cristão tamanha quantidade de bordéis); além disso, há outros papas que tiveram vida sexual ativa com pessoas do mesmo sexo, principalmente guardas e sacerdotes do baixo clero. De acordo com os historiadores, a lista de pontífices sexualmente ativos é bastante longa e comprovada, sem teorias da conspiração; grande parte destes nomes é composta por pessoas que viveram durante a Idade Média e Idade Moderna. Papas contemporâneos ainda não aparecem nestes estudos historiográficos.

Documentos de Jesus...
Às vezes, é alegado que existe uma coleção de documentos que se referem diretamente a Jesus, como a ordem de execução de Jesus, assinada por Pôncio Pilatos, ou foram escritos pessoalmente por Jesus, explicando aos seus seguidores como conduzir a formação da Igreja após sua morte, ou até mesmo a data exata do seu retorno para a humanidade no Juízo Final. Estes documentos seriam um segredo bem guardado pela Igreja, e supostamente estão escondidos no Arquivo do Vaticano, ou foram transferidos para um abrigo subterrâneo no caso em que a Alemanha nazista viesse a invadir o Vaticano. No entanto, não há nenhuma evidência sólida para qualquer um dessas alegações. Na história houve somente um documento que foi atribuído ao próprio Jesus, a Carta de Cristo e Abgarus. Estudiosos em geral acreditam que as cartas foram fabricadas provavelmente no século 3. Mesmo em tempos antigos, Agostinho de Hipona e Jerônimo sustentaram que Jesus não escreveu nada durante sua vida. A correspondência foi rejeitada como apócrifo pelo Papa Gelásio I e um sínodo romano por volta do ano 495. Essa teoria da conspiração é defendida por poucos e rejeitada por muitos, uma vez que a própria Igreja poderia tornar tais documentos públicos quando atacada por ateus na alegação de que Cristo nunca tenha existido, mas somente é uma alegoria histórica e mitológica.


Teorias conspiratórias envolvendo o Papa João XXIII...
O Papa João XXIII (1881-1963) (foto abaixo) foi alvo de várias acusações e teorias de conspiração, que são feitas e defendidas majoritariamente por alguns grupos de católicos tradicionalistas, entre os quais se destacam os sedevacantistas e os conclavistas. Como, por exemplo, estes grupos minoritários e marginalizados defendem que João XXIII era maçom ou rosacruciano; ou era um herege modernista por defender o ecumenismo, a liberdade religiosa e a realização do Concílio Vaticano II. Por acusá-lo de ser um herege, alguns até defendem a teoria conspiratória de que João XXIII era um antipapa que usurpou ilegalmente a cátedra de São Pedro, que devia pertencer ao cardeal Giuseppe Siri. Existem também alguns grupos, ligados à ufologia ou à detecção e crença de profecias apocalípticas, que defendem que João XXIII teve vários contatos com extraterrestres e redigiu um conjunto de profecias com muitas metáforas que abrangem desde a Segunda Guerra Mundial até ao fim do mundo. Parte destas profecias obscuras foram registadas no livro “As profecias do Papa João XXIII”, de Pier Carpi. Entretanto a maior pedra no caminho da história de João XXIII está relacionada à guerra, quando seu pontificado se situou durante a Segunda Guerra Mundial, sendo conhecido por “Papa de Hitler”, por jamais ter condenado as atitudes dos nazistas e dos fascistas. Os principais grupos católicos não acreditam ou negam todas estas teorias e especulações conspiratórias; eles defendem-se dizendo que estas acusações, vindas de grupos marginalizados e ávidos de teorias de conspiração, são tão vagas e mal fundamentadas que a Igreja Católica nunca se deu ao trabalho de refutá-las.


Teorias da conspiração envolvendo a morte de Papa João Paulo I...
O Papa João Paulo I (foto abaixo) morreu em setembro de 1978, apenas um mês depois de sua eleição para o papado. O momento de sua morte e alegadas dificuldades do Vaticano com os procedimentos cerimoniais e legais após a morte fomentaram várias teorias da conspiração. O autor David Yallop escreveu extensivamente sobre crimes não resolvidos e teorias da conspiração, e em seu livro de 1984 “In God’s name” sugeriu que João Paulo I morreu porque estava prestes a descobrir escândalos financeiros supostamente envolvendo o Vaticano. John Cornwell respondeu às acusações Yallop em 1987, com “A thief in the night”, em que analisou as várias alegações e negou a conspiração. De acordo com Eugene Kennedy, escrevendo para o “New York Times”, o livro de Cornwell ajuda a purificar o ar de paranoia e de teorias da conspiração, mostrando como a verdade, cuidadosamente escavada por um jornalista em um volume pode nos refrescar, faz-nos livres.


Tentativa de assassinato do Papa João Paulo II...
Várias teorias foram apresentadas no que diz respeito à tentativa de Mehmet Ali Agca de matar o Papa João Paulo II, em 1981. Essas teorias têm envolvido os Lobos Cinzentos, o serviço secreto búlgaro, entre outros.

As teorias conspiratórias envolvendo o Vaticano, os papas e a Igreja Católica sempre existiram e sempre vão existir por conta da sua influência ao longo do curso historiográfico e da sua importância nas culturas de vários países. É óbvio que devemos abrir os olhos e atentarmos para o que está acontecendo ao nosso redor – como por exemplo a veracidade da vida sexual de alguns papas – mas há teorias conspiratórias mirabolantes demais, que em vez de esclarecer, atrapalham ainda mais a evolução do pensamento lógico do ser humano.