sábado, 25 de maio de 2013

Eurábia: a Europa “dominada” por Alá. Teoria da conspiração ou um fato negligenciado?

Ao longo da história sabemos, e estudamos, que a Europa sempre foi um importante centro do cristianismo – seja ele o católico ou o ortodoxo oriental. A invasão islâmica da Península Ibérica, no século 8, e que durou até o século 15, quase devastou a cultura cristã do mapa europeu. Mais tarde foi a vez do poderosíssimo Império Turco-Otomano que abalou muitas estruturas até 1914. Na realidade, a Europa com sua cultura cristã sempre teve preconceito com o mundo árabe-islâmico desde esses eventos citados anteriormente; ambos os lados viram os rivais como infiéis, mesmo crendo no mesmo Deus.

Nos últimos anos surgiu a expressão “Eurábia”, que seria a Europa se tornando cada vez mais árabe graças a um conjunto enorme de fatores, que geram mais preconceitos, mais lutas etc. A cada censo há um espanto com o aumento exorbitante de fiéis islamitas europeus, fluxos imigratórios, leis anti-imigração etc. Mas você realmente conhece esses fundamentos? Vamos debater alguns pontos agora!


As origens do conceito...
Eurábia” foi o título de uma publicação curta dos anos 70, feita pelo Comitê Europeu de Coordenação e Associação de Amizade com o Mundo Árabe, ou seja, um comitê de relações de amizade e diplomacia entre a Europa e os países árabes ou islâmicos. De acordo com Bat Yeor, que foi a teórica que mais influenciou neste conceito, a Eurábia já é formentemente vista em algumas partes da Europa, como Londres, Paris, Berlim, Genebra, Hamburgo e Turim.

Debatendo a Eurábia: fato ou farsa?
Depois dos atentados terroristas nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2011, os olhos do mundo se voltaram para árabes e muçulmanos – valendo explicar que são palavras diferentes, não são a mesma coisa; há árabes não muçulmanos, bem como há muçulmanos que não são árabes. Diante dos atentados terroristas e de atitudes da al-Qaeda, as minorias islamitas e a imigração de muçulmanos ganhou novos significados políticos, sociais e econômicos. Isso só fez crescer o preconceito que já era ruminado pelas sociedades judaico-cristãs desde a Idade Média. Muitos pretextos foram dados para guerras, invasões e atitudes arbitrárias.

Assim, o termo Eurábia voltou ao vocabulário das teorias da conspiração em 2005, quando Bat Yeor lançou um livro bastante notável, “Eurábia: a aliança euroarábica”, em que a estudiosa amplia seus estudos e fala dos reflexos da “guerra contra o terror” patrocinada pelo governo Bush, sendo na realidade uma guerra contra os seguidores do profeta Maomé (Mohammad).


Neste livro, Yeor aponta que a Eurábia é o resultado da política liderada pela França em uma época que os Estados Unidos ainda não se preocupavam com a imigração muçulmana, deixando de lado os interesses dos países árabes. Enquanto isso, tais países árabes submergiam em guerras civis, fomes, políticas inescrupulosas fomentadas pelo ouro negro, o petróleo, justamente no período de descolonização afroasiática, das independências após o chamado Neocolonialismo.

Em 1973, durante a crise do petróleo que afetou todo o planeta, a autora aponta que houve a primeira leva de imigrações em massa do mundo islâmico rumo à Europa, cuja primeira escala era a Turquia. O caso turco é especial: juntamente com a Bósnia e Kosovo, são Estados oficialmente muçulmanos dentro da Europa, e por isso há tanta resistência em inserir a Turquia no bloco da União Europeia, mas não houve tal resistência em relação à Otan (aliança militar), uma vez que há um inimigo ainda maior por ali: o Irã e o Iraque.

Na definição da autora, a Eurábia é:

Uma realidade geopolítica construída aos poucos a partir de 1973, através de um sistema informal de alianças entre alguns países europeus e outros países árabes. Tais alianças foram propostas durante a crise do petróleo, e nunca mais transformaram a Europa naquilo que um dia fora; a imigração em massa começou a incomodar a população, que sentia sua cultura eurocristã extremamente ameaçada”.

Ou seja, há muitas heranças históricas e culturais neste contexto de Eurábia. É hoje o preço pago por muitos países graças ao Neocolonialismo dos séculos 19 e 20 sobre a África e a Ásia, e hoje recebem populações destas áreas na busca de novas chances de emprego e melhores condições de vida, saúde e educação. Foi assim que a população islâmica cresceu absurdamente na Grã-Bretanha, Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália, Suíça e, principalmente, na França (vindos da Argélia, Marrocos, Jordânia e Síria, por exemplo).


Entre os acadêmicos e teóricos de ciência política, a concepção de Eurábia não se reflete em um contexto islamofóbico, apesar de a mídia e alguns amadores da internet tentarem assimilar o conceito à extrema direita. De primeira, os acadêmicos pouco se interessaram pelo conceito alegando haver ali pouco (ou nenhum) conceito histórico, político ou sociológico. Assim, acabou caindo nas graças de alguns estudiosos de extrema direita e defensores ferrenhos dos direitos dos povos do Oriente Médio, principalmente os antissionistas.

Infelizmente, tudo isso mudou e o mundo passou a entender melhor a Eurábia a partir de 2011, com os atentados na Noruega, que resultaram na publicação de diversos trabalhos que tratam especificamente sobre as teorias conspiratórias envolvendo a Eurábia.

De acordo com o Pew Research Center, entre 2010 e 2030, a população muçulmana na Europa poderá chegar aos 10% do total de pessoas, enquanto o cristianismo diminui, o ateísmo ganha espaço maior e as pessoas que se declaram sem religião também crescem assustadoramente para os olhos dos teólogos. Entretanto, 10% pode parecer pouco, mas em alguns países os números podem ser ainda maiores, como a Bélgica; neste país, 37 de cada cem crianças que nascem são filhas de famílias islâmicas. A taxa de natalidade das famílias crédulas nos ditos do profeta Maomé é muito grande em relação às famílias cristãs, e isso enerva alguns políticos.

Há alguns anos, o então presidente francês Nicolas Sarkozy (foto abaixo) causou polêmica no mundo islâmico ao proibir publicamente manifestações de credo árabe, como o véu feminino e as burcas, bastante tradicionais nos arredores do Paquistão e Afeganistão; assim, algumas mulheres chegaram a ser presas por usarem vestimentas tradicionais do Oriente Médio. Politicamente, explica-se que Sarkozy, de extrema direita, fez tais leis pensando em proibir a imigração muçulmana para a França, a fim de impedir o conceito de Eurábia em seu país. Em toda Europa reclama-se que, em tempos de crise econômica, os imigrantes tomariam as vagas de trabalho dos “legítimos europeus caucasianos”.



Política europeia e a Eurábia...
As teorias que envolvem este conceito não têm, ainda, conseguido impactar os grandes atores do mundo da política e do academicismo. Entretanto, ganha força na lábia da extrema direita e grupos neonazistas. Em eleições, os partidos sempre têm batido na tecla da “islamização” da Europa, o que seria “extremamente ruim” para a cultura europeia. O problema nasce a partir do momento que tais pessoas veem suas culturas tradicionais e cristãs “ameaçadas”, esquecendo que há alguns séculos destruíram culturas e povos inteiros através de conquistas e massacres tenebrosos.

Este é o caso de alguns políticos holandeses, alemães, franceses e austríacos. Na Grécia em plena crise, um partido extremista conseguiu inúmeras vagas no parlamento através do discurso do “perigo da Eurábia”. Um deputado francês chegou a dizer que “daqui a alguns anos, um entre cada cinco europeus serão islâmicos”, conotando tom de terror e criando uma histeria desnecessária. Na Holanda, movimentos extremistas afirmam que os cristãos estariam servindo a Alá. No entanto, é digno de nota que o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, mesmo com suas divergências, têm convergências: são cultos monoteístas que endeusam Javé, o Deus do pacto judaico; os muçulmanos veem em Jesus um dos maiores profetas da história do monoteísmo; creem em toda história de Abraão e Moisés etc. Alá não seria um outro deus, mas sim a tradução da palavra “Deus” em árabe!

O posicionamento em meio à crise econômica europeia e a “islamização” do continente fez com que a extrema direita esquecesse – ou parasse de se preocupar tanto – com os direitos das minorias: negros, mulheres, homossexuais e deficientes.


Nos meios rurais europeus, onde ainda há bastante ignorância, a mídia faz um verdadeiro shownalismo com relação às imigrações e convivência com muçulmanos. Na Noruega, por exemplo, um descendente de turcos foi proibido de se candidatar à prefeitura de uma cidade, chegando a ser ameaçado de morte e tendo sua casa pichada por vândalos extremistas.

Já nos Estados Unidos, principalmente após 11 de setembro de 2001, esta teoria tem ganhado uma força tremenda através da chamada “guerra contra o terror”, ou “contra-jihad”. Há, inclusive, um movimento chamado “Parem a islamização da América”, liderado por republicanos extremistas e evangélicos. Na eleição presidencial de 2012, por exemplo, o tema chegou a ser debatido pelo pré-candidato Rick Santorum quando ele alertou que “a Europa está criando uma enorme oportunidade de se tornar uma Eurábia, sendo que não haveria em pouco tempo cristianismo algum para os verdadeiros europeus”.

Ok, vamos analisar este dito de Santorum. O debate é político ou religioso? Qual o problema de ser muçulmano? Há um grande abismo entre ser terrorista e ser islâmico. E o que seria um “verdadeiro europeu”? Isso nos lembra o discurso de Hitler sobre limpeza étnica, pureza e arianismo. Seriam os europeus verdadeiros brancos, loiros e de olhos claros? Com certeza foi uma afirmação despreparada e totalmente infeliz.


Críticas às teorias da Eurábia...
Muitos filósofos, sociólogos e cientistas políticos dizem que o conceito de Eurábia deve ser rejeitado, uma vez que em toda história a assimilação de imigrantes é complexa em diversas culturas, principalmente em culturas antagônicas. Outros estudiosos chegam a debochar, dizendo que a teoria seria a dos “Protocolos dos sábios de Sião” às avessas; sendo, portanto, infantil, lúdica, com pouca base teórica.

De acordo com alguns jornalistas norte-americanos, articulistas influentes, a ideia de Eurábia é baseada em uma teoria da conspiração mal formulada, com bases historiográficas extremamente anacrônicas, tentando trazer problemas do passado para a atualidade, causando uma perigosíssima fantasia islamofóbica. Alguns chegaram a chamar Yeor de “ridícula, fantasiosa, desnecessária, polêmica”, aumentando ainda mais o sentimento de ódio nos movimentos extremistas de direita, incutindo na cabeça deles ideias que seriam insanas.

Segundo os estudiosos, a população islâmica na Europa não está crescendo a passos largos conforme o tom alarmista da autora, uma vez que a taxa de fertilidade diminui com a integração social. Desta forma, os muçulmanos não seriam um grupo isolado e que não se integra socialmente, mas interagindo sócio-economicamente em qualquer país. Para muitos, a influência política do islamismo na Europa ainda é ínfima para causar tanto alarde. Para outros especialistas, falar em Eurábia seria como falar sobre o antissemitismo europeu no século 19 e início do século 20, que de tanto iculcar na cabeça das pessoas culminou no movimento extremista do nazismo, dizimando mais de seis milhões de judeus em campos de concentração.


Apesar de negar publicamente, a Europa realmente tem medo da “islamização” da sua cultura, haja vista as atitudes de Sarkozy na sua governança. O movimento de imigração após a descolonização afroasiática aumentou esse medo, e quem acredita na Eurábia aponta vários outros indícios para esta situação, principalmente na recusa de entrada da Turquia na União Europeia e na zona do euro, ou leis que impedem a aceitação da poligamia – uma vez que um muçulmano pode ter até quatro esposas.

Fica em aberto esta questão, uma vez que os debates sobre a Eurábia e os movimentos de imigração e crescimento do islamismo na Europa ainda estão ferventes nos meios sociológicos, teológicos, econômicos e historiográficos.