quinta-feira, 16 de maio de 2013

Considerações sobre a bruxaria e a caça às bruxas: fatos, farsas e muitas histórias...

Bruxas e bruxarias, duas palavras que conhecemos bastante e fazem parte da nossa cultura, seja pela religião que prega a demonização de tais práticas, ou seja, através dos contos de fadas, quando bruxas terríveis encantam lindas princesas e donzelas na busca de vingança. Por fim, podemos interpretar que a bruxa sempre esteve e, possivelmente, sempre estará associada a poderes obscuros e malignos; faculdades sobrenaturais de uma pessoa que, geralmente, se utiliza de magia ou curandeirismo com intenção de ultrapassar barreiras éticas e morais. O post de hoje tem a finalidade de tentar mostrar o que é realmente verdadeiro e o que é fabuloso entre o mundo das bruxas e das bruxarias.


1. Muito do que se diz atualmente sobre as bruxas e as práticas de bruxaria caem em descrédito porque tais figuras sempre foram associadas ao mundo dos contos de fadas, portanto, vindo a serem imaginadas demais e pouco vividas. Entretanto, a bruxaria é uma prática comum para algumas seitas pagãs ao redor do mundo, misturando curandeirismo, feitiçaria, vodu etc.

2. Para os bruxos atuais, a bruxaria é o culto a uma entidade superior em sistemas que variam de uma deidade única hermafrodita ou à pluralidade de panteões antigos, como os deuses celtas, egípcios, greco-romanos ou nórdicos, por exemplo. Assim, a bruxaria não seria uma religião específica, mas um elo sobrenatural que mistura inúmeros elementos terrenos que fazem essa mesma conexão com o “lado de lá”.

3. Há diferença entre ser bruxo e ser feiticeiro. O feiticeiro seria aquele que realiza feitiços e oferendas cujo objetivo é interferir na realidade de outra pessoa ou determinado grupo; seria a tentativa de manipular a realidade com cultos, oferendas, transes etc. Já o bruxo seria o indivíduo que trabalha com poções e chás que agem diretamente na pessoa, sem apelos a oferendas a deuses, por exemplo, sendo “mais terreno” do que metafísico.

4. É conveniente apontar que a bruxaria é algo totalmente diferente e independente do paganismo e do chamado neopaganismo, apesar de muitos confundirem estes em função da corrente moderna de hibridização de cultos, como foi dito anteriormente ao falarmos dos panteões.

5. A bruxaria, sendo caracterizada pela liberdade de pensamento, acaba por apresentar um amplo leque de linhas de pensamentos e de vertentes de características bastante distintas – existem as práticas de bruxaria que misturam culturas locais. Entretanto, alguns elementos em comum podem ser apresentados a fim de que se tenha melhor compreensão do significado da bruxaria como um sistema historiográfico e filosófico.


6. De acordo com os adeptos de tais práticas, nenhum verdadeiro bruxo tentará doutrinar ou converter uma pessoa que pratique outra religião, respeitando a diversidade e a liberdade de credo e de pensamento. Assim, para os bruxos, a fé só é verdadeira se resulta de escolha individual e espontânea.

7. Outro ponto importante é que nenhum verdadeiro bruxo realizará qualquer tipo de magia no intuito de se beneficiar de algo que prejudicará outra pessoa. Este seria o caso, por exemplo, da bruxa personagem do conto “Branca de Neve e os Sete Anões”, que dá a maçã envenedada à heroína para matá-la e tornar-se a mais bonita da vila.

8. O verdadeiro bruxo respeita a natureza, e por natureza ele entende absolutamente tudo o que não é feito pelo homem. Na concepção deles, quando se preserva a natureza, suas preocupações não são a viabilidade da manutenção da vida humana na Terra, o verdadeiro bruxo respeita a natureza simplesmente porque se sente parte dela, porque a ama.

9. Esta concepção da natureza por parte da bruxaria é uma herança milenar, uma vez que as pessoas que praticavam tais atos viviam nas cercanias das vilas, dentro das florestas, e tiravam de lá o seu sustento. Além disso, muitas práticas da bruxaria endeusam a natureza por si própria, e por isso dizem que é preciso respeitá-la, uma vez que ela contém entidades como deuses e deusas.

10. A caça às bruxas foi uma perseguição social e religiosa que começou no final da Idade Média e atingiu seu apogeu na Idade Moderna. Foi quando o catolicismo e, mais tarde, o protestantismo queimaram inúmeras pessoas em “fogueiras santas” ou torturaram outras tantas em troca de possíveis confissões.


11. O mais famosos manual de caça às bruxas é o “Malleus maleficaruim”, “Martelo das bruxas”, de 1484. Ele pode ser baixado na internet, traduzido, com alguma facilidade. Nele contém inúmeros métodos de tortura para confissão e “meios de descobrir” se uma pessoa é feiticeira ou não.

12. No passado os historiadores consideraram a caça às bruxas europeia como um ataque de histeria supersticiosa que teria sido forjada e espelhada pelo cristianismo. Seguindo essa lógica, era “natural” supor que a perseguição teria sido pior quando o poder da Igreja era maior, ou seja: antes da Reforma Protestante dividir a cristandade ocidental em segmentos conflitantes. Nessa visão, embora houvesse ocorrido também julgamentos no começo do período moderno, eles teriam sido poucos se comparados aos supostos horrores medievais.

13. Pesquisas historiográficas recentes mostram que o período áureo da caça às bruxas na Europa ocorreu com maior força entre 1550 e 1650, justamente com o nascimento da chamada “Idade da Razão” e dos Renascimentos Cultural e Científico, ao contrário do que se pensava no senso comum, pensando que a perseguição ocorria na Idade Média, ou “Período das trevas”.

14. Curiosamente, não foi somente o catolicismo quem colocou em fogueiras pessoas acusadas de bruxaria em julgamentos estranhos e totalmente parciais em condenar tais vítimas. Na Alemanha pós-Reforma há uma série de julgamentos parecidos e uma mortandade incrível. Na Suíça protestante (calvinista) também ocorre a mesma paranoia coletiva, quando milhares de indivíduos eram mortos no método conhecido como “fogo lento”: a vítima era colocada em brasas ardentes para morrer lentamente enquanto cozinhava.

15. Virtualmente todas as sociedades anteriores ao período moderno reconheciam o poder das bruxas e, em função disso, formularam leis proibindo que crimes fossem cometidos através de meios mágicos. Assim, por exemplo, na Inglaterra do século 13 era proibido usar mágica para fugir de julgamentos, prisões e condenações.


16. O período medieval europeu não foi exceção, e podemos encontrar as caças às bruxas desde o auge da civilização babilônica. Esta suspeita costumava recair sobre as mulheres estrangeiras e suas estranhas práticas. Também houve uma clássica caça às bruxas nos Estados Unidos no período colonial, em um julgamento imortalizado como “As bruxas de Salem”, praticado por imigrantes de credo protestante.

17. A paranoia sobre as bruxas teve início pouco depois de 1300, na Europa Central, quando começaram a surgir rumores acerca de conspirações malignas que estariam tentando destruir os reinos cristãos através de magia e envenenamento.

18. Curiosamente, na Europa Central, muitos judeus eram acusados de bruxaria, feitiçaria, envenenamento de fontes, contaminação de lepra etc. Em alguns lugares da Alemanha, o fato de ser judeu já levava ao sinônimo de ser bruxo/feiticeiro.

19. Depois da enorme devastação decorrente da Peste Negra, que dizimou cerca de 40% da população europeia no século 14, muitos rumores aumentaram e, então, judeus e ciganos passaram a ser mais temidos ainda. Dizia-se que a doença se espalhava pelo ar através de “missas negras” e “profanações” a símbolos cristãos.

20. Entre os século 15 e 16, temporada do início do racionalismo e antropocentrismo (o Homem como centro do pensamento e do universo, ao contrário do teocentrismo medieval, o pensamento de Deus como centro de toda atividade terrena), curiosamente, começam os julgamentos em massa, quando cinco pessoas eram queimadas vivas em cerimônias jurídicas e religiosas na Espanha, em Portugal, na França, na Boêmia, na Suíça e na Alemanha.


21. Em 1484 foi lançado o livro “Malleus maleficarum”, ou “O martelo das bruxas”, pelos inquisidores alemães Heinrich Kraemer e James Sprenger, livro este que inicialmente foi recusado pelo bispo que o encomendou, tendo seus dois autores sido posteriormente excomungados por continuarem com a venda da publicação.

22. Curiosamente, “O martelo das bruxas” foi um grande sucesso, chegando a 28 edições, e detalha as práticas consideradas como manifestações de demônios. Com o tempo, se tornou uma espécie de “bíblia da caça às bruxas” e causou enorme influência nos Estados Unidos, nas comunidades puritanas, tendo sido utilizado no famoso caso das bruxas de Salem.

23. Ao surgirem as primeiras ondas da Reforma Protestante, o número de julgamentos chegou a diminuir por alguns anos. Entretanto, em 1550 a perseguição cresceu novamente, dessa vez atingindo níveis alarmantes. Esse é o período mais sanguinário da história, que atingiu tanto terras católicas como protestantes e durou de 1550 a 1650. Depois desse período os julgamentos diminuíram fortemente e desapareceram completamente em torno de 1700.

24. Os historiadores apontam que houve três focos importantes de caça às bruxas: na Espanha, na Alemanha pós-Reforma, quando houve as guerras religiosas, e na Suíça graças ao fanatismo calvinista, que propunha às pessoas que vigiassem seus vizinhos e os denunciassem às cortes religiosas.

25. A partir dos anos 1970, os historiadores passaram a estudar detalhadamente os registros históricos de julgamentos, ao invés de confiar apenas nos relatos dos casos mais famosos e outras fontes pouco seguras. A nova metodologia trouxe mudanças significativas na compreensão que se tinha deste período.


26. É interessante apontar que a caça às bruxas não foi somente um movimento religioso, mas também social. Muitas pessoas se reuniam nas praças das vilas para assistirem aos julgamentos, torturas e execuções. Tais atos eram praticamente vistos como atrações de lazer.

27. No período de auge da caça às bruxas na Europa, o tempo não ajudou muito na colheita: o inverno foi forte demais e o verão trouxe enxurradas que destruíram as plantações, causando fome, mortes e inúmeras doenças. A superstição e o medo fizeram com que as pessoas atribuíssem tais fenômenos da natureza a atos de bruxaria de judeus e ciganos.

28. A maior parte das vítimas foram julgadas e executadas entre 1550 e 1650. A quantidade de julgamentos e a proporção entre homens e mulheres condenados poderá variar consideravelmente de um local para o outro. Por outro lado, 3/4 do continente europeu não presenciou nem um julgamento sequer. A maioria das vítimas foram julgadas e executadas por tribunais seculares, sendo os tribunais locais, foram de longe os mais intolerantes e cruéis. Curiosamente, por outro lado, as pessoas julgadas em tribunais religiosos recebiam um melhor tratamento, tinham mais chances de poderem ser inocentadas ou de receber punições mais brandas.

29. O número total de vítimas da caça às bruxas ficou provavelmente por volta dos 50 mil, e destes, cerca de 25% foram homens. Mas esse número nunca poderá ser realmente calculado. Mulheres estiveram mais presentes que os homens, e também enquanto denunciantes, e não apenas como vítimas.

30. A maioria das vítimas era parteiras ou curandeiras locais (rezadeiras), mas a maioria não era realmente formada por bruxas. A grande maioria das vítimas era da religião cristã, até porque a população pagã na Europa na época da caça às bruxas era muito reduzida.


31. Estudos recentes vêm apontar que muitas das vítimas da caça às bruxas, bem como de muitos casos de “endemoniados”, teriam sido vítimas de uma intoxicação. O agente causador era um fungo denominado Claviceps purpurea, um contaminante comum do centeio e outros cereais. Este fungo biossintetiza uma classe de metabólitos secundários conhecidos como alcalóides da cravagem e, dependendo de suas estruturas químicas, afetavam profundamente o sistema nervoso central. Os camponeses que comeram pão de centeio (o pão das classes mais pobres) contaminado com o fungo eram envenenados e desenvolveram a doença, atualmente denominada de ergotismo.

32. Em alguns casos, também se verificou alegações falsas de prática de bruxaria e de estar possuído pelo demônio, com o fim de se apropriar ilicitamente de bens alheios ou como uma forma de vingança, uma vez que a família do possível feiticeiro perdia todas as terras e os bens, ficando à sorte alheia.

33. Outro ponto interessante é que durante esse período da caça às bruxas da Idade Modernas, muitas manifestações de doenças foram confundidas como manifestações demoníacas, tais como a epilepsia. Muitos epiléticos foram a julgamento e queimados em fogueiras, principalmente na Suíça de Calvino.