sábado, 30 de março de 2013

Você conhece os livros apócrifos da Bíblia? É uma parte interessante da teologia e da história...

Nos últimos anos, muito tem se debatido sobre os chamados livros apócrifos da Bíblia. Entretanto, poucas pessoas sabem o seu real significado e a sua enorme importância para a constituição do cristianismo e até mesmo do judaísmo. “Apócrifo” é uma palavra de origem grega e significa “Oculto”; tais livros não foram postos no cânon bíblico por uma série de fatores que dependiam do tempo, do ensinamento, da teologia, da catequese etc. No post de hoje vamos fazer algumas considerações sobre esta sedutora parte da história das religiões, que encanta muitos pesquisadores a cada nova descoberta!


1. O termo “apócrifo” foi cunhado por São Jerônimo no século cinco para dar nome aos documentos escritos entre a confecção do livro de Malaquias e os Evangelhos. De acordo com o catolicismo e o protestantismo, não seriam inspirados em Deus, sendo, tão-somente, relatos históricos confusos e controversos;

2. A consideração do que é ou não apócrifo depende da religião. Por exemplo, alguns livros bíblicos católicos e judaicos são considerados como apócrifos para os protestantes quando Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, após a Reforma, e reorganizou o seu cânon de acordo com aquilo que ele pregava. São alguns deles: Tobias, Macabeus 1 e 2, Eclesiástico, Baruque etc;

3. Muito do que sabemos sobre a vida de Jesus vem dos apócrifos do Novo Testamento, que somariam pelo menos 50 novos livros, incluindo “novos Evangelhos” e que nos permitem ter uma visão nova e/ou detalhada do Messias. Atualmente, alguns teólogos descrevem que os apócrifos são extremamente úteis e não faria sentido reformular uma “nova Bíblia” com tais livros;

4. A Bíblia como a conhecemos foi compilada em livros por volta do século 3 ou 4 da nossa era, na gênese do cristianismo como religião oficial do Império Romano. Muitos livros tornaram-se apócrifos justamente porque contradiziam entre si os ensinamentos, pois dependiam de tempo (época em que foram escritos) e espaço (a sociedade em que foram concebidos). Se todos os livros fossem colocados, a Bíblia teria mais de quatro volumes;

5. Para a maior parte dos teólogos, 90% dos apócrifos foram escritos mais de 200 anos após a condenação de Jesus à crucificação, o que perderia muito da fidelidade aos ocorridos. Ou seja, muito do que está ali pode ser interessante como fonte de estudos, mas há pouca precisão e muitos anacronismos;

6. Muitos dos apócrifos do Novo Testamento mostram um Jesus humanizado demais, o que estaria distante da imagem passada pelos quatro Evangelhos canônicos. Nesses livros, por exemplo, Jesus festejava, bebia com os amigos, era marido de Maria Madalena etc.


7. Com a popularização da internet, ficou mais fácil conseguir traduções de livros apócrifos e comentários de teólogos sérios, mas que acabaram sendo distorcidos por escritores e comentaristas, como é o caso do livro/filme “O código Da Vinci”. A polêmica surge ao tirar um contexto pequeno e transpo-lo para outro contexto totalmente diferente;

8. O número dos livros apócrifos é maior que o da Bíblia canônica. É possível contabilizar 52 em relação ao Antigo Testamento e 61 em relação ao Novo Testamento. Isso em relação à Bíblia católica, que contém os 13 livros que faltam na versão protestante;

9. Alguns dos apócrifos do Velho Testamento são: A vida de Adão e Eva, Apocalipse de Moisés, Ascensão de Isaías, Caverna dos Tesouros, Livro dos Jubileus, Macabeus 3 e 4, Martírio de Isaías, Oráculos Sibilinos, Revelação de Esdras, Testamento de Abraão, Testamento dos Doze Patriarcas etc.

10. Curiosamente, por muitos séculos o livro do Apocalipse foi considerado apócrifo pelas igrejas cristãs do Oriente e do Ocidente, por ser visto como catastrófico demais, pouco inspirado em Deus e cheio de possíveis misticismos. Somente na metade da Idade Média ele passou a ser mais bem aceito pelas comunidades cristãs;

11. Curiosamente, algumas igrejas cristãs ortodoxas orientais reformularam seus cânones bíblicos nos séculos 18 e 19 e inseriram alguns livros que anteriormente eram considerados apócrifos. Entretanto, não fizeram nenhuma mudança na composição dos Evangelhos, que ainda permanecem quatro;

12. Ao que tudo indica, já no século 2 da nossa era já havia uma série de fraudes circulando pelo mundo conhecido com supostos textos de autorias duvidosas. De acordo com alguns historiadores, epístolas apócrifas não teriam sido escritas por São Paulo. Este seria um dos motivos que as igrejas cristãs não reconhecem várias cartas, testamentos e evangelhos desta “outra Bíblia”;


13. Muitas pessoas acham curioso o hiato da infância de Jesus. A Bíblia oficial fala de seu nascimento, parte da sua pré-adolescência e, depois, os anos de pregação até sua condenação. Entretanto, há nos apócrifos o chamado Evangelho da Infância, que ganhou extrema popularidade ao, supostamente, narrar ocorridos de Jesus entre seus sete e quinze anos de idade;

14. Há uma variedade muito grande de textos que falam sobre a família de Jesus, como o Evangelho do Nascimento de Maria, o Evangelho de José Carpinteiro e o Evangelho dos Hebreus (este que seria a versão da ótica dos judeus em relação ao movimento cristão);

15. Muitos dos Evangelhos apócrifos acabam sendo “proibidos” e/ou “ocultos” porque distorcem a profecia cristã oficial dos textos canônicos. Isso aconteceu não por pura maldade, mas porque a Igreja ainda era primitiva e não havia um consenso no que propagar como fé. Assim, em cada canto da Europa e Oriente Médio acreditava-se numa parte desta enorme Bíblia que ainda não estava compilada e, portanto, com dizeres contraditórios. Alguns destes Evangelhos contraditórios seriam: de Marcião, de Mani, de Apeles, de Cerinto etc.

16. Há outra série de supostos Evangelhos que trabalham duas questões bem importantes, a primeira sobre a infância de Jesus, como seus primeiros milagres ainda quando tinha oito, nove anos. A segunda é sobre a Paixão, que narram sob outra ótica a prisão, execução e ressurreição de Cristo;

17. Na era moderna, muitos textos gnósticos foram recuperados, especialmente após a descoberta da Biblioteca de Nag Hammadi, em 1945. Alguns textos expõem a cosmologia esotérica e a ética defendida pelos gnósticos. Muitas vezes, isso ocorre na forma de diálogos em que Jesus expõe seu conhecimento esotérico enquanto seus discípulos fazem perguntas;

18. Há uma série de livros bíblicos apócrifos que trazem diálogos e ensinamentos interessantíssimos sobre Jesus e Suas palavras aos discípulos. São alguns deles: Apócrifo de Tiago, Diálogo do Salvador, Evangelho de Judas, Evangelho de Maria Madalena, Evangelho Grego dos Egípcios etc.


19. Os setianos eram um grupo que originalmente adoravam Seth como uma figura messiânica, tratando depois Jesus como uma reencarnação de Seth. Eles produziram numerosos textos expondo a sua cosmologia esotérica. Eles produziram quatro livros: Apócrifo de João, Evangelho dos Egípcios, Apocalipse Copta e Protenoia Trimórfica;

20. Os Atos de Apóstolos eram um gênero literário durante o cristianismo primitivo, que contava a história do movimento cristão após a ascensão de Jesus através das vidas e obras de seus apóstolos, principalmente Pedro, João e Paulo. Entre os apócrifos, diversos textos tratam da vida subsequente dos apóstolos, usualmente pontuadas com eventos fortemente sobrenaturais. Ainda que a maioria dos textos tenha sido escrita no século 2 d.C., pelo menos dois, os Atos de Barnabé e os Atos de Pedro e Paulo podem ter sido escritos no século 5. Dentre os apócrifos há pelo menos outros doze Atos;

21. Curiosamente, entre os apócrifos há uma coleção de pelo menos doze espístolas, entre elas algumas que teriam sido escritas pelo próprio Jesus, e outras entre Herodes e Pilatos;

22. Outra parte interessante na coletânea de apócrifos é a de versões de “Apocalipses”, ou seja, versões escatológicas cristãs e pseudocristãs do fim dos tempos. Alguns livros discutem o futuro, a vida após a morte etc. Entre tais Apocalipses estão: Apocalipse da Virgem, Apocalipse de Paulo, Apocalipse de Pedro, Apocalipse de Tomé, Apocalipse de Estevão, Primeiro e Segundo Apocalipses de Tiago etc.

23. Muitos dos textos apócrifos debatem os eventos que circundaram o destino de Maria, mãe de Jesus, logo após a ressurreição do filho. Há mais de 50 textos extremamente controversos que falam para onde ela teria ido: França, Armênia, Etiópia etc.


De um modo geral, podemos dizer que os livros bíblicos apócrifos são extremamente interessantes porque revelam como foi formatado o cristianismo ao longo do tempo e do espaço enquanto não havia uma unidade dogmática. Mostram como havia confronto de ideias e de crenças, versões diferentes dos mesmos fatos. Tais livros podem ser encontrados na internet em diversos sites, mas o leitor que for pesquisar sobre eles deve estar atento para o fato de que traduções livres podem prejudicar o entendimento do contexto do tempo e da sociedade; portanto, é importante visitar sites sérios e academicamente reconhecidos. De resto, boa leitura e boa pesquisa!