terça-feira, 26 de março de 2013

Pedras estariam “andando” sozinhas no Vale da Morte: fato ou farsa?

Recentemente, recebi dois e-mails de pessoas curiosas comentando as fotos e vídeos que tratam sobre as pedras que estariam “rolando sozinhas” no Vale da Morte, nos Estados Unidos. Como sabem se elas estão rolando? Porque elas deixam um rastro na areia. Isso sempre foi um mistério de muitos séculos nas culturas indígenas da área, e que sempre despertou a curiosidade das pessoas; a investigação foi difícil, mas conseguiu ser realizada com sucesso em 2009 por um grupo de geólogos.


O Vale da Morte, o inferno sobre a terra...
O Vale da Morte é uma árida depressão localizada ao norte do Deserto de Mojave, na Califórnia. Estende-se por aproximadamente 225 quilômetros, ao longo da fronteira da Califórnia com o estado de Nevada. É famoso por seu clima extremamente quente. A temperatura mais alta das Américas, e a segunda mais alta já registrada no planeta, foi registrada no Vale da Morte em 10 de julho de 1913. A temperatura máxima foi de 56,6°C. Diz a lenda que o lugar é tão quente que, certa vez, um pesquisador soltou um passarinho e ele caiu morto alguns minutos depois de levantar voo.

Sobre as “rochas deslizantes”...
As rochas deslizantes de Racetrack Playa são um dos fenômenos geológicos mais intrigantes que ocorrem no Vale da Morte, especialmente no lago seco chamado Racetrack Playa. O fenômeno consiste de pedras de dimensões variáveis, algumas bastante grandes, com centenas de quilogramas de massa, que são encontradas com um rastro atrás de si marcado no solo, sem qualquer sinal associado de intervenção humana ou animal.


O Parque Nacional do Vale da Morte é conhecido como uma área de extremos topográficos e climáticos. Contém os pontos mais baixos (86 metros abaixo do nível do mar) e as mais altas temperaturas atmosféricas. A precipitação de chuva é de apenas cinco centímetros por ano. Nas ocasiões de chuva, o afluxo de água descido das montanhas nos arredores pode criar um lago raso com uma lâmina de água de até 25 cm de espessura, que logo evapora. A Racetrack Playa é uma planície elevada a 1.131 metros, com uma cadeia montanhosa circundante. A área do lago localiza-se no centro de uma bacia hidrográfica fechada. A superfície da playa é quase perfeitamente plana e quase sempre seca, coberta de lama solidificada e fragmentada em polígonos irregulares.

As rochas encontradas na área da playa se originam das colinas nos arredores. São encontradas a distâncias de até milhares de metros de sua fonte, com rastros atrás de si marcados na lama seca que sugerem um movimento por tração. Os rastros variam em extensão e direção, alguns mostram linhas quase retilíneas, ou curvas suaves, outros têm angulações abruptas e irregulares. A direção predominante é sul/sudeste e norte/nordeste, consistente com os ventos dominantes da área e sugerindo a força eólica como causa do fenômeno. A natureza dos rastros indica que o movimento se dá quando a superfície da playa está saturada de umidade, mas não profundamente inundada.


Observações e hipóteses...
Registros informais, míticos e populares sobre este fenômeno sempre existiram, mas foi no século 20 que houve uma multiplicação geral nas tentativas de entendê-lo. O primeiro registro escrito conhecido é de McAllister e Agnew, que em 1948 publicaram um artigo no Geological Society of America’s Bulletin, sugerindo que a causa do movimento das rochas era os ventos. Outras pesquisas se seguiram, com mapeamento da área, medições e contagem dos rastros e das pedras, e de outras características geológicas.

A maior parte dos estudiosos aponta o vento atuando sobre uma superfície de lama fresca como a causa principal do movimento das rochas. George Stanley (em 1955) considerou que os ventos registrados na região são pouco potentes para mover rochas que pesam até 300 quilos, e sugeriu que a formação de placas de gelo em torno das pedras poderia ser um fator auxiliar no aumento de sua superficie sem aumento significativo em seu peso, favorecendo a captação do vento e o incremento local de sua potência, bem como o deslizamento.

Bob Sharp e Dwight Carey iniciaram em 1972 um programa de monitoramento de cerca de 30 rochas movidas recentemente. Cada pedra recebeu um nome e foi observada ao longo de sete anos, objetivando testar a hipótese das placas de gelo. Foram montados cercados e estacas em torno dos espécimens selecionados, que deveriam impedir a ação do vento e detectar alterações causadas por congelamento. Contudo, as pedras se moveram da mesma forma, ignorando as proteções, permanecendo as estacas sem serem afetadas. Outras pedras selecionados em pares apresentaram movimento de apenas uma, enquanto a outra, exatamente ao lado, permaneceu imóvel. Quase todas as pedras monitoradas se moveram no período fixado, em distâncias que variaram de poucos centímetros até 262 metros.


Em 1995, alguns pesquisadores tentaram pela primeira vez fazer o monitoramento das pedras deslizantes por câmeras de vídeo 24 horas por dia. Entretanto, o calor é tão extremo no Vale da Morte que o equipamento parava de funcionar quando a temperatura passava dos 45°C. Isso ocorreu em 1997 e 2001 e, por isso, ganhou uma conotação mística entre alguns moradores da região.

Outros pesquisadores estudando o fenômeno em 1995 detectaram a ocorrência de ventos incomumente fortes sobre o lugar, que podem ser comprimidos e intensificados por causa da conformação topográfica. Notaram, ainda, que a zona limítrofe acima do solo onde o vento ainda é potente é de apenas cinco centímetros, evidenciando que pedras relativamente pequenas ainda recebem o pleno impacto dos ventos, que podem atingir a velocidade de 145 km/h durante as tempestades de inverno. Tais tempestades foram consideradas o impulso primário do movimento, enquanto que ventos mais suaves e constantes, com apenas metade da velocidade de impulso inicial, são tidos como suficientes como força propelente de maior duração e que possibilita deslocamentos longos.


Solucionando o caso das pedras móveis...
Em 2009, finalmente, um grupo de geólogos em conjunto com o National Geographic decidiu catalogar e filmar o movimento das rochas deslizantes, fazendo experimentos em laboratórios. Tais experiências renderam um documentário que foi ao ar no National Geographic Channel.

Os geólogos comprovaram que se trata de um fato o movimento aparentemente sombrio das rochas, que com mais de 200 quilos podem se movimentar sozinhas. Isso realmente ocorre por conta de dois fatores já estudados mas que ainda careciam de comprovação: (1) o vento extremamente forte que assola o Vale da Morte; (2) o movimento maior ocorre quando o solo tem certa umidade, formando uma lama muito fina, que depois de seca deixa o rastro na Racetrack Playa.

Então podemos dizer que as rochas se movimentam graças a estes dois fatores, sem intervenções humanas, sobrenaturais e misteriosas. Mesmo assim, esta parte do Vale da Morte ainda atrai muitos visitantes todos os anos que tentam captar tais “energias” cósmicas.