quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Será que a Igreja um dia teve um cachorro como santo? Fato ou farsa?

De primeira, poderemos dizer que o resultado é um empate: um fato e uma farsa. A história é bastante interessante, e hoje suscita um debate muito grande, principalmente entre os críticos iconoclastas do catolicismo, acusando que atualmente a instituição tentaria esconder esse passado de adoração a um cachorro.

Desde os tempos que o ser humano se organizou em pequenas vilas, há dezenas de milhares de anos, os cães foram domesticados por suas características peculiares e úteis: companheirismo e vigilância. Auxiliavam no pastoreio, ajudavam na caça e ainda faziam papel de vigilantes durante a noite. Assim, os caninos sempre estiveram presentes na nossa cultura. Sempre gostamos deles e tivemos imenso carinho por eles.


Entretanto, um dos fatos mais intrigantes é o do ícone do cristianismo oriental que mostra um cão com auréola. Seria ele um santo adorado e devotado, que hoje a Igreja renega por ter características pagãs? A história é um pouco comprida...


Na Idade Média, havia inúmeros relatos fantásticos sobre ilhas distantes onde seres humanos tinham cabeça de cachorro. O inglês John Mandeville faz um desses relatos e os chama de “cinocéfalos” – ou seja, “aquele com cabeça de cão” – e outro é o famoso explorador Marco Polo, que em seu diário de bordo fala de uma ilha com homens cavernosos, de cabeça canina, e comportamento estranho. Entretanto, tudo não passava de um simples erro de identidade: os seres humanos de cruzamento bizarro eram relatados erroneamente; esses europeus viram, pela primeira vez, os macacos babuínos.


Explicando o caso de “São Cachorro”...
São Cristóvão aparece em algumas representações das igrejas orientais ostentando uma curiosa cabeça de cão. De acordo com a tradição, ele transportou Jesus menino de uma margem a outra de um rio e, por isso, ganhou a alcunha de padroeiro dos motoristas na Europa e nas Américas.



Já no cristianismo do Oriente, segundo a lenda, Cristóvão era muito bonito, razão pela qual era constantemente assediado pelas mulheres, enquanto ele queria seguir uma vida monástica distante dos pecados da carne. Com isso, orou muito e pediu a Deus que lhe desse a cabeça de um animal como forma de proteção de tanto assédio. Assim, foi-lhe dada a cabeça de cachorro, que já era símbolo da fidelidade e do companheirismo – nesse caso, fidelidade ao devotamento cristão.

De acordo com a historiografia teológica, a história remonta os primeiros séculos do cristianismo, quando ainda não havia uma liturgia definida nem mesmo um dogma certo. Cada comunidade vivia a religião da sua maneira, adotando práticas locais “cristianizadas”. O catolicismo como conhecemos hoje foi todo moldado durante os mil anos da Idade Média. Desta maneira, o culto do santo com cabeça de cachorro foi cristianizado a partir do culto egípcio a Anúbis, deus que tem cabeça de cão.


O folclore do santo com cabeça de cachorro prova como o culto do cristianismo foi sofrendo remodelações ao longo dos séculos e que até mesmo a religião é viva, e que ela permanece se modificando com a lógica dos tempos. São Cristóvão “canino” é praticamente um estudo antropológico interessantíssimo que evidencia como a população tem certa dificuldade de abandonar os seus cultos mais antigos e trata de adequá-lo aos cultos mais novos.