sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre o unicórnio, um animal lendário por ser tão misterioso...

Nas armas reais da Grã-Bretanha (foto abaixo), o leão e o unicórnio aparecem juntos desde que a Escócia e a Inglaterra foram unificadas. Anteriormente, o escudo inglês era composto por um leão e um dragão. O unicórnio veio do escudo escocês, cujas armas eram figuradas por dois desses animais.


Na Idade Média considerava-se extremamente arriscado juntar um unicórnio e um leão em um escudo ou bandeira, uma vez que na natureza eles eram inimigos mortais. Um era a caça, o outro, caçador. Um autor do século 17 deixou para nós uma viva descrição de uma dessas caçadas:

“Assim que um leão vê um unicórnio, corre a refugiar-se junto de uma árvore, que utiliza simultaneamente como arma ofensiva e defensiva; na rapidez da sua corrida, o unicórnio, cuja carga o leão evita, precipita-se contra a árvore, onde espeta o seu chifre aguçado. Uma vez o unicórnio preso pelo chifre e o perigo debelado, o leão cai sobre ele e mata-o”


Outros escritores bem antigos também mencionam outras características deste animal, tornando ainda mais incrível a credulidade de que ele realmente existisse. Alguns dizem que ele conseguiria empalar três elefantes com seu poderoso e enorme chifre. Outros dizem que vários unicórnios morreram justamente por causa do chifre: com o inimigo morto preso ao chifre, o animal morria de fome ou vítima da putrefação da carne em frente à sua face. O hábitat era variado: há histórias nas montanhas e até nos desertos.

Alguns autores apontam que o encontro com um destes animais poderia desencorajar qualquer um por conta da sua violência e selvageria. “A besta morde como um leão e escoiceia como um cavalo feroz”, diz um relato. Dizia-se ser impossível a domesticação, apesar das inúmeras tentativas.

Muito mais crendices...
Durante a Idade Média, ninguém havia visto um unicórnio sequer, mas a população acreditava piamente na sua existência e nos milagres do seu corpo. Isso fez com que um comércio bizarro se espalhasse por toda a Europa: roupas de couro de unicórnio, bucho de unicórnio vendido em açougues a preço elevadíssimo, chifre de unicórnio para proteção de mau-olhado etc. Abaixo, algumas das crendices encontradas por aí ao longo dos séculos:


• Botas com couro de unicórnio protegiam contra a peste negra;
• Bucho de unicórnio melhorava estados gripais graves;
• Chifre de unicórnio protegia contra mau-olhado quando usado como amuleto. Quando moído, era antídoto para qualquer tipo de envenenamento e curava epilepsia;
• Esfregar o chifre de um unicórnio em uma infestação alérgica cessava o mal instantaneamente;
• Fígado cru de unicórnio batido com gema de ovo de pata curava lepra;
• Se uma fonte ficasse contaminada, bastasse depositar nela um chifre de unicórnio para que a água voltasse a ficar boa para o consumo.

Durante o Renascimento, época tão falada pelo distanciamento das crendices populares e retorno à razão greco-romana, os envenenamentos eram extremamente comuns. Por isso, na Itália, há o registro de um verdadeiro comércio de “taças moldadas com chifre de unicórnio”. Hoje em dia sabe-se que eram fabricadas com marfim de elefante.

Diante de tamanha raridade em encontrar o animal e os poderes tão fabulosos atribuídos ao seu corpo como um todo, podemos imaginar como dispendioso era possuir um chifre de unicórnio. O viajante alemão Paul Hentzer afirmou, em 1598, que um membro da família real espanhola havia comprado um chifre destes à soma fabulosa de cem mil libras, o que hoje significaria perto de um bilhão de reais.

O comércio do embuste na Itália cresceu e passou a exportar para toda a Europa. Restos de marfim de elefante ou mármore moldado eram vendidos na Alemanha e na França como chifres de unicórnio com poderes incríveis. Couro de cavalo, na Espanha, transformava-se em couro de unicórnio. Entre outros tantos exemplos.

De acordo com a crendice medieval, se um unicórnio enfurecido invadisse um feudo – o que nunca ocorreu –, era preciso que uma virgem se pusesse à sua frente; desta forma, o bicho amansaria e deitaria a cabeça em seu colo para ser acariciado. Desta forma, a fera era morta a lançadas dos moradores dos vilarejos.


De onde surgiu a ideia de um cavalo com chifre?
Ao que tudo indica, foi um erro de identidade bastante antigo. O viajante grego Ctésia, em 400 a.C., parece descrever um rinoceronte. Os antigos chineses usavam chifre de rinoceronte contra casos de envenenamento quando a Europa começou a fazer comércio com o Oriente. Na Índia antiga, havia vários relatos de rinocerontes enfurecidos em vilas.

A crendice popular fez todo o resto de mistificar essa lenda. Como quem conta um conto sempre aumenta um ponto, o chifre de rinoceronte da China chegou à Itália como um chifre milagroso de um animal desconhecido e que ganhou fama nas vilas.